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Ficção e Ceticismo
Gustavo
Bernardo, publicado em KRAUSE, Gustavo Bernardo (org).
Literatura e ceticismo. São Paulo: Annablume, 2005
Reprodução gentilmente autorizada
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Se vou falar
sobre ficção, preciso distingui-la bem da realidade, para não promover ilusões
ou mesmo alucinações. A distinção usual é a de que o mundo da ficção contém
muitas incertezas perigosas, enquanto o mundo da realidade contém as certezas de
que precisamos para continuar vivendo. Entretanto, essa distinção talvez seja
não apenas insuficiente, como inteiramente equivocada. Levanto a hipótese
contrária à da distinção usual: o mundo da realidade é que conteria as
incertezas mais perigosas, enquanto que o mundo da ficção conteria as certezas
de que precisamos para sobreviver.
No mundo considerado real, dizemos que as
leis da gravitação universal são aquelas
enunciadas por Isaac Newton. No mesmo mundo,
consideramos verdadeiro que Napoleão tenha sido
morto em Santa Helena em 5 de maio de 1821.
Contudo, cientistas e historiadores mantêm a
mente aberta para admitir formulação diversa da
gravitação ou nova data para a morte de
Napoleão, caso novas evidências ou novos
documentos provem o contrário do que se sabia
até então. Não é absolutamente seguro que a
gravitação se comporte como Newton enunciou, nem
que Napoleão tenha falecido naquela data e
naquele local. Isso quer dizer que nem a Ciência
nem muito menos a História podem ser
consideradas exatas, como pregam nossas divisões
escolares: enquanto a primeira, na melhor das
hipóteses, nos aproxima da realidade, sem nunca
se poder calcular a porcentagem dessa
aproximação, a segunda conta como o passado
poderia ter acontecido, quiçá, através de
narrativas que se apresentam, também na melhor
das hipóteses, atravessadas por lacunas
importantes.
No mundo da ficção, no entanto, há
certezas inquestionáveis, como por exemplo as de
que Sherlock Holmes era solteiro, de que Anna
Karenina se matou, de que Hamlet não chegou a se
casar com Ofélia, e ainda de que a identidade
secreta do Super-Homem é o jornalista Clark
Kent. Sherlock Holmes não pode ter sido de modo
algum casado ou viúvo, Anna Karenina não pode
ter morrido de morte natural e Hamlet não pode
ter casado com Ofélia e com ela vivido feliz
para sempre, assim como o Super-Homem não pode
ser Jimmy Olsen. Posso negar que Jesus fosse
filho de Deus ou até pôr em dúvida sua
existência histórica, mas convivo com outras
pessoas que crêem em Jesus como o filho de Deus,
ou que afirmam que ele de fato viveu e pregou
nos anos iniciais da Era Comum. Eu respeito
essas pessoas, porque não tenho certeza nem de
uma coisa nem da outra – mas não posso respeitar
da mesma maneira quem afirme que Hamlet teve
três filhos com Ofélia ou que o Super-Homem
seria, na verdade, Lois Lane.
Para Umberto Eco,
os textos ficcionais, à diferença do mundo e
ainda quando ambíguos, explicitam uma margem
muito clara de certeza, conduzindo-nos a um
paradoxo interessante: a ficção desrealiza o
real para criar um novo real mais seguro,
portanto “mais real”, do que aquele que se
encontrava no ponto de partida.
Se prestarmos atenção na nossa vida cotidiana,
tantas vezes a ficção se mostra mais real do que
o real. Leio sobre a morte eterna de Antígona e
me comovo por inteiro, como talvez não o faça
quando morre uma pessoa da minha estima. Se
morre alguém que existe de verdade e quero
muito, demoro muito a
realizar, isto é, a tornar real esta morte, quer
porque preciso cuidar do velório e de outras
pessoas que também estão sofrendo, quer porque
ainda não suporto realizar a própria realidade.
Se quem morre, todavia, é o personagem daquele
livro em que embarquei suspendendo toda a
descrença prévia, posso realizar a dor tão
completamente que chego a fingir que é dor a dor
que deveras sinto: vivo essa morte, se entendem
o paradoxo, como se fosse mais real, ou seja,
mais intensa, do que uma morte “real”.
Pode-se visualizar bem semelhante
paradoxo no quadro de René Magritte, “A ponte de
Heráclito”, pintado em 1935. Na imagem, a ponte
supostamente real como que se interrompe no ar,
ao tocar na névoa, não conduzindo quem a
atravesse, ou quem esteja admirando o quadro, a
lugar algum. O reflexo da ponte na água do rio,
porém, mostra uma ponte completa, atravessando o
rio. Temos certeza da imagem da ponte, mas não
temos qualquer certeza da ponte ela mesma. Temos
certeza do reflexo, do sintoma, da conseqüência,
mas não podemos ter qualquer certeza da coisa
que provoca o reflexo, da doença que gera o
sintoma, da causa que produz a conseqüência.
Como se trata da ponte de Heráclito, segundo o
título que lhe deu o pintor, podemos ainda dizer
que essa ponte incerta atravessa o rio que nos
banhamos e no qual nunca somos os mesmos que
fomos no primeiro banho, assim como o rio nunca
é mais o mesmo, ou seja: trata-se de um rio que
a rigor não existe, atravessado por uma ponte
que a rigor também não existe, pintado por um
pintor que a rigor não existiu e observado por
espectadores que, a rigor e igualmente, não
existem. Em palavras diretas: a rigor, não
existimos.

Esta conversa,
então, entra no terreno rico, mas perturbador,
das aporias. O campo da teoria da literatura é
rico em aporias ou raciocínios aporéticos, por
conta da dificuldade de se chegar a certezas
demonstráveis. Uma aporia indica ou a
dificuldade insuperável de um raciocínio, ou o
conflito resultante da igualdade de raciocínios
opostos entre si. O adjetivo “aporético”
refere-se ou a tudo o que não tem solução à
vista, ou ao ato de se valorizar mais o exame de
um problema do que sua resolução. Fazem parte do
campo semântico de “aporia” as palavras
“incerteza” e “impasse”.
A questão da origem do ser, por exemplo, é uma
aporia: como toda origem supõe o ser, nem aquela
nem este podem ser explicados.
A emergência das aporias ocorre menos por
indigência teórica do que pelo caráter
intrínseco dessa teoria: há nela uma ambigüidade
dilemática que a constitui. Para dar conta da
ambigüidade, dos dilemas e das aporias, isto é,
para lidar com a colisão entre as certezas da
ficção e as incertezas da realidade, preciso
pedir ajuda aos céticos.
Mas quem seriam os céticos? Respondo
provisoriamente, distinguindo-os de
dogmáticos e niilistas: enquanto os dogmáticos
têm certeza
de que só eles sabem alguma coisa e os
niilistas têm certeza de que não se pode ter
certeza de nada, os céticos duvidam de que se
possa ter certeza de alguma coisa; enquanto os
dogmáticos já acharam a resposta e os niilistas
já pararam de procurar, a dúvida dos céticos os
leva a continuar procurando a verdade. Por isso,
os céticos também são chamados de “zetéticos”,
que significa: “procuradores”.
Ao desconfiar de
dogmas, verdades definitivas ou afirmações
peremptórias, os céticos
se mantêm em
constante estado de incerteza e investigação
intelectual. Entre dogmáticos do “sim”,
filósofos sistemáticos e crentes em geral, e
dogmáticos do “não”, niilistas e apocalípticos,
a opção dos céticos é pelo “talvez”, pelo “pode
ser que sim, pode ser que não”.
Uma pedagogia
cética orienta os alunos a fugirem das sentenças
categóricas, recorrendo a termos suspensivos
como “talvez”; esses termos também funcionam
como traços de cautela acadêmica. Seu uso
instaura uma dúvida interna ao pensamento,
promovendo desse modo diálogo igualmente interno
ao texto. Se as idéias debatem entre si, adiando
o máximo possível a conclusão, o leitor desse
tipo de texto se sente parte do diálogo, e não
um sujeito intimado a concordar com ou a
discordar de determinada opinião. Para Roland
Barthes, no entanto, termos suspensivos e
modalizadores não afetam a arrogância original
de quem fala, uma vez que a escrita é no
fundamental assertiva, logo, mais vale aceitar o
fato estóica e tragicamente.
Se o talvez é apenas um truque tal qual o plural
de falsa modéstia, ele está certo; mas, se a
língua em verdade nos fala, o recurso constante
à suspensão lingüística pode, apenas pode,
gravar um ponto de interrogação no interior do
discurso e do pensamento, suspendendo as
certezas e valorizando a interminabilidade da
busca. Para o mesmo Barthes, “não há outra saída
para a arrogância a não ser a suspensão da
interpretação, do sentido”.
Na literatura, suspende-se não apenas o sentido
como a própria identidade do escritor, primeiro,
e do leitor, depois, através da perspectiva
fictícia dos personagens.
A dúvida, fruto da
suspensão do juízo, se encontra na origem da
filosofia ocidental, ou seja, no ceticismo
antigo. Pirro, provavelmente o inaugurador dessa
maneira de pensar, nasceu antes de Sócrates,
Platão e Aristóteles. Usando os termos gregos,
podemos esboçar o seguinte esquema do trajeto
cético: zétesis
-
diaphonía - isosthenia - epoché
-
afasia
- ataraxia -
adiaphoria.
Zétesis é a busca
pela verdade, que não termina. Essa busca leva o
cético a encontrar não a verdade mas sim a
diafonia, isto é, o conflito insolúvel entre as
diferentes teorias e os diferentes buscadores da
verdade. O conflito leva o cético a concluir
pela isostenia, ou seja, pela eqüipolência das
teorias: não há como decidir qual delas deteria
a verdade. Em conseqüência, o cético precisa
acautelar-se, suspendendo seu juízo sobre os
acontecimentos e as idéias: a suspensão do juízo
é precisamente a epoché, que funciona como a
chave desse trajeto. Se, por cautela, suspende o
juízo, o cético também se recusa a se
pronunciar, essa recusa constituindo a afasia.
Nesse momento, ele se aproxima da ataraxia, isto
é, da tranqüilidade intelectual garantida pela
indiferença, isto é, pela adiaforia. Essa
ataraxia não é bem “conquistada”, mas ela como
que “acontece” sem ser esperada, como destaca
José Raimundo Maia Neto, em seu livro capital
sobre o ceticismo de Machado de Assis.
Por isso, o objetivo do cético seria menos a
apátheia – apatia – do que a praótes
– brandura, suavidade.
Podemos explicar
melhor a epoché não exatamente como suspensão do
juízo, mas sim como “suspensão do assentimento”.
Na verdade, o cético, se não pára de duvidar,
não pára de pensar. A epoché implica antes a
afasia, como recusa a se pronunciar
categoricamente sobre isto ou aquilo, do que a
recusa a pensar. Esta afasia não subentende
incapacidade de falar mas sim reivindicação do
direito ao silêncio, em particular em uma época
tão barulhenta e tão “endoxal”, isto é, tão
movida pela obrigação da opinião.
De acordo com Comte-Sponville, a afasia
patológica “é uma prisão que nos encerra no
silêncio; a afasia pirrônica, uma liberdade, que
nele nos abre”.
De acordo com Jean-Paul Dumont, “quando um
cético adota a atitude silenciosa, não está
buscando na dúvida um refúgio confortável, ou um
meio de evitar o erro. Ao contrário, só está
descrevendo o estado de equilíbrio de sua alma
diante de representações incertas e submetidas a
forças igualmente contrárias”.
O silêncio cético não é um silêncio “da boca”,
se os céticos falam como qualquer um, mas sim um
silêncio do pensamento e da razão, isto é, do
sistema implícito que subjaz a toda filosofia e
a toda declaração: o que se recusa é a fala
sistemática e dogmática.
O ceticismo mostra-se como uma espécie de
retórica apaixonada pela própria retórica, isto
é, pelo prazer de pensar: discute-se o mundo,
suspeitando-se das concepções que o pretendam
reger e, ao mesmo tempo, se discute a discussão
em si. Em conseqüência, o ceticismo apóia-se
antes no argumento stricto sensu do que
nas evidências que o corroborariam. O argumento
cético, quando fraco, tende ao niilismo e à
auto-contradição, dizendo que não pode
compreender nada; logo, não poderia compreender
sequer que não compreende. O argumento cético,
quando mais forte, se organiza a partir de
algumas metáforas geradoras que permitem a
aproximação do problema pelas bordas e, por sua
vez, mostram a importância da ficção para a
filosofia.
Uma dessas
metáforas geradoras é a do cérebro em suspensão.
Hilary Putnam perguntou: “como saber se não sou
mais que um cérebro numa cuba, recebendo
estímulos transmitidos por um cientista louco?”.
Hilary supôs, para efeito de argumentação, que
fôssemos cérebros em suspensão num tanque cheio
de um líquido pegajoso dentro do laboratório de
um cientista maluco. Por computador, o cientista
alimentaria nossas memórias e experiências. Ora,
como saber se não somos esses cérebros
monitorados? Ainda que a suposição pareça mera
ficção científica, ela se sustenta: caso o
hipotético cientista tenha sido bem-sucedido,
não temos como saber se somos ou não controlados
pelo seu computador.
Qualquer semelhança dessa metáfora com o
filme The Matrix não é mera coincidência.
Esse filme, assim como Metropolis (1926),
Fahrenheit 451 (1967) e Blade runner
(1982), produz uma ficção científica que,
justamente, desconfia da ciência. Matrix
é uma trilogia (1999, 2002 e 2003), escrita e
dirigida pelos irmãos Wachowski, que conta a
história do hacker Thomas (ou Neo). Neo é
o Escolhido: the One (anagrama de “Neo”).
Ele encontra Morpheus que, com o nome do
paradoxal deus do sono, sugere que a realidade
pode mudar através de sonhos: o nome também
remete a morphing, o processo informático
que permite a passagem, sem emenda perceptível,
de uma realidade a outra (em português já
existe, com esse sentido, o neologismo
“morfar”).
É Morpheus quem
define “real”: “se você está falando do que pode
ser cheirado, provado e visto, então real é
simplesmente um sinal elétrico interpretado por
seu cérebro”.
Ele ensina que o mundo conhecido é virtual:
trata-se de uma realidade simulada por
computadores. Toda a vida cotidiana não passaria
de uma intrincada rede de ilusões, um
mundo-armadilha, a arrogância humana ampliada:
the Matrix. A idéia deriva do panóptico
de Jeremy Bentham e toma forma ficcional em
1984, na imagem do big brother criado
por Orwell em 1948. Mas o termo “Matrix” é
enunciado pela primeira vez no romance
Neuromancer, de William Gibson, publicado,
por ironia, no ano de 1984. No não-espaço da
Matrix, o interior de um determinado constructo
de dados tem uma dimensão subjetiva ilimitada;
uma calculadora de brinquedo, por exemplo, pode
apresentar vários golfos de não-existência.
Antes de
Matrix, Bertrand Russell produzira curiosa
variante da metáfora do cérebro em suspensão.
Segundo essa variante, o mundo pode ter sido
criado há não mais do que cinco minutos e
preenchido com uma população que se “lembraria”
de passado inteiramente irreal. A hipótese de
Russell é perturbadora, porque nada do que
acontece ou do que acontecerá, não podemos
recorrer ao que “aconteceu”, pode provar que o
mundo não teria sido criado agora há pouco.
Na verdade, a suposição de Putnam, a trilogia
dos irmãos Wachowski e a alternativa de Russell
são variantes “diabólicas” da hipótese Deus. Se
Deus existe, o que nos garante que Ele não se
divirta conosco, como se fosse um ensandecido
manipulador de marionetes humanas? Descartes já
imaginara algo parecido, quando pensou na
possibilidade de um Gênio Maligno que nos
iludisse o tempo todo. O filósofo francês não
teve coragem de chamar o seu Gênio Maligno de
Deus, mas nada no argumento o impedia. Ditados
do tipo “Deus escreve certo por linhas tortas”
reforçam essa possibilidade assustadora.
Quando não pretende nos assustar tanto
assim, o argumento cético parte do senso comum
de que todos cometemos erros para aplicar uma
rasteira no próprio senso comum: se antes
cometemos erros, o que garante que não se está a
cometer novos erros? Como saber se as situações
presentes se diferenciam das situações
anteriores? Ora, se não há como saber quando se
acerta e quando se erra, não há como definir
quer o erro, quer o acerto. O senso comum se
apóia na noção de experiência para sustentar
suas certezas, recorrendo ao clichê: “eu sei por
experiência própria”. Por experiência própria,
de fato, temos certeza de pelo menos algumas
coisas: de que existimos, de que há dia e noite,
da fome. Mas o apoio na experiência pessoal toma
por estabelecido o que ainda estaria em
discussão, formulando uma petição de princípio:
é a nossa experiência que nos garante que a
nossa experiência é um guia confiável. Como nada
podia ser mais suspeito, na verdade não podemos
ter certeza absoluta de nada: não se podem
justificar sequer as crenças mais simples do
dia-a-dia.
Semelhante constatação é insuportável,
ainda que logicamente sustentável. Por isso, os
argumentos céticos provocam muita irritação, o
que produz outro paradoxo: os céticos,
procurando a tranqüilidade, geram dissensão e
controvérsia. Renato Lessa observou, no ciclo de
conferências sobre literatura e ceticismo que
organizamos na UERJ, que aqueles que se irritam
com os céticos reivindicam, implícita ou
explicitamente, a necessidade do dogmatismo para
qualquer postura civilizatória e produtiva, no
que não deixam de ter razão: de fato, sem dogmas
não se fundam religiões, filosofias, economias,
quaisquer instituições. Acontece que os céticos,
contrariamente aos militantes das demais
filosofias, não pretendem “vencer” os
dogmáticos, primeiro porque essa seria uma
pretensão vã, segundo porque se vencessem se
tornariam justamente o que combatem. O ceticismo
é antes uma espécie de terapia da hybris
da razão dogmática e, às vezes, ensandecida.
Lessa também
anotou que aqueles que se irritam com os céticos
podem, além de reivindicarem a necessidade do
dogmatismo, padecerem de uma doença comum que
costuma acometer todos os que dependem de
certezas firmes para se sentirem seguros e com
alguma identidade: a ausência de um mínimo de
humor. No entanto, ele deve estar sendo um pouco
irônico; nós não chegaríamos a tanto. Mas não
podemos deixar de notar que as críticas mais
duras que se fazem aos céticos costumam
retornar, como bumerangues metafísicos, contra
os críticos. Por exemplo, acusa-se os céticos de
solipsismo, doutrina segundo a qual o eu
considera a si mesmo (ipse) o único (solus)
a existir. Um solipsista considera todos os
demais entes meras impressões do seu próprio eu
isolado no centro do mundo. Se um cético é um
solipsista, então o que ele nega é nada mais
nada menos do que a realidade. Mas, fora o fato
de que o cético na verdade não nega – ele duvida
–, a crítica dá a volta e parece atingir os
críticos: incorre em solipsismo justo aqueles
que se apoiam na experiência própria. A
experiência de alguém mal pode dar conta da
compreensão do que acontece consigo mesmo, não
havendo como se compreender a experiência de
outrem. Com muita dificuldade, lembramos de uma
dor que sentimos – provavelmente, lembramos
apenas da idéia da dor, ou da frase: “naquele
dia eu senti muita dor”. Por comparação, a dor
de qualquer outra pessoa é inconcebível; mal
podemos saber da dor para nós.
Logo, seríamos todos muito mais solipsistas
do que gostaríamos de admitir.
A melhor representação literária do
solipsismo encontramos no conto de Philip K.
Dick, “A cidadezinha”. No conto, o protagonista
Vernon Haskel é um típico funcionário frustrado,
morador de uma cidadezinha americana chamada
Woodland, e casado com uma mulher que não o
compreende e que, ainda por cima, o trai com
outro homem bem melhor sucedido, chamado Tyler.
A “cidadezinha” do título, entretanto, não é
aquela em que eles moram, mas sim o seu modelo
em miniatura que Vernon constrói desde criança a
partir de um trem elétrico de brinquedo que
ganhara há anos.
No porão da casa, Vernon põe o boné de
maquinista na cabeça e diariamente monta uma
miniatura detalhada de todos os prédios, ruas e
acidentes da sua própria cidade. Quando está
quase terminando, aos 43 anos de idade, sente-se
tão frustrado que começa a destruir os lugares
em que o humilharam, a começar pela fábrica em
que trabalhava. No lugar da fábrica, ele monta a
miniatura de um prédio que não existe na cidade,
o Necrotério. Eufórico por haver alterado o seu
modelo e criado o que não existia antes na
realidade que o inspirara, Vernon começa a mudar
sua própria vida: demite-se do emprego. Quando
volta para casa mais cedo, descobre a mulher com
o amante, mas parece pouco se importar. Está com
pressa de retornar ao seu porão, colocar o boné
de maquinista e refazer, frenética mas
caprichosamente, todo o modelo da cidade. A
mulher e o amante o observam, sem entender, até
que ele os expulsa do porão.
Lá embaixo, Vernon destrói a loja de
vendedores esnobes e, no lugar, coloca um salão
e um boliche; destrói a mansão do vizinho cujo
cachorro o mordera, substituindo-a por um
parque; destrói a área dos cortiços e no seu
lugar levanta casas pequenas e limpas; destrói a
imensa área industrial, para plantar, com papel
verde, uma região campestre; destrói o prédio em
estilo pedante, rococó, da Prefeitura, no seu
lugar erigindo um prédio baixo e simples,
inspirado no Parthenon. No letreiro da
Prefeitura, em letras minúsculas, ele pinta:
“Prefeito: Vernon Haskel”.
Na sala, a esposa está preocupada, mas
Tyler, o amante, suspeita que os problemas de
ambos estejam prestes a ser resolvidos. Quando
eles escutam um grito na madrugada, descem ao
porão e não encontram nem Vernon, nem o modelo.
O porão se encontra vazio. Tyler pega o carro e,
junto com a esposa de Vernon, vai até a
delegacia para informar o desaparecimento.
Enquanto dirige, eufórico, explica para a mulher
que seu marido havia se tornado parte do próprio
mundo substituto que criara – por isso, nunca
mais seria encontrado. Como ele trabalhara a
vida inteira naquele modelo, o tornara tão real
que passara a fazer parte dele. Didaticamente,
Tyler explica o que teria acontecido:
Levei
algum tempo para perceber. A mente
constrói a realidade. Ela a emoldura e a
cria. Todos nós temos uma realidade
comum, um sonho comum. Mas Haskel virou
as costas para a nossa realidade comum e
criou a sua própria realidade. E ele
tinha uma capacidade única... bem além
do que é normal. Devotou sua vida
inteira, todas as suas habilidades para
construi-la. Ele está lá agora.
No entanto, à medida em que dirige
velozmente na cidade silenciosa, na direção da
delegacia, os dois sentem que há algo errado.
Que Vernon tenha sumido, fazia sentido; mas por
que o modelo sumira também? De repente, a mulher
percebe, à direita do carro, um prédio
diferente, com a placa “Necrotério”. Ela soluça
de pavor, enquanto o amante continua a dirigir,
com as mãos entorpecidas. Aproximam-se da
Prefeitura, agora um prédio baixo, simples –
como um templo grego de mármore. Tyler pára o
carro, tremendo. Quando percebe o que vai
acontecer, não há mais tempo de fazer nada:
quatro policiais ríspidos, severos e eficientes
os cercam e abrem as portas do seu carro. A
“realidade comum” transformara-se na “realidade
de um”: eles é que estavam dentro do modelo,
portanto, dentro da realidade de Vernon.
A literatura põe
sob suspeição a realidade; por isso, a refaz. O
poeta resolve os dilemas do solipsismo e da dor,
própria e alheia, entendendo-se tão fingidor que
chega a fingir que é dor a dor que deveras
sentira, representando melhor sua dor real se e
somente se o fizer através de uma simulação que
passa a ser vivida como mais real, isto é, mais
intensa, do que o real ele mesmo. Por isso o
leitor, na dor lida, diferente da dor escrita,
sente bem, não as duas dores que o poeta teve,
nem sequer a dor que está lendo, mas apenas uma
quinta dor, a qual não será igual à que ele,
leitor, teria tido antes da leitura. Assim, nas
calhas de roda, como em um moinho que transforma
o trigo em pão, o coração, núcleo mitíco da
alma, gira, entretendo e enganando a
razão, para moer a dor ao transformá-la em verso
e, então, lhe emprestar algum sentido.
Nas breves e
conhecidas estrofes do poema de Fernando Pessoa,
“Autopsicografia”, de uma dor, de um poeta e de
um leitor se fazem no mínimo cinco dores,
complexificando toda a nossa possibilidade de
compreensão da realidade mais imediata – mais
dolorida. Bernardo Soares, heterônimo do poeta
português, explicará como é necessário perverter
a natureza do sentimento para haver comunicação.
Não há comunicação do que em verdade se sente,
mas sim do que no lugar do sentimento se
inventa. A dúvida obriga à mentira, porque a
mentira “é tão-somente a noção da existência
real dos outros e da necessidade de conformar a
essa existência a nossa, que se não pode
conformar a ela”. Por isso, Bernardo Soares
iguala fingir a amar: “amamo-nos todos uns aos
outros, e a mentira é o beijo que trocamos”. A
mentira, aqui, é o nome menos nobre da ficção.
Servimo-nos da mentira e da metáfora para nos
entendermos uns aos outros, “o que, com a
verdade, própria e intransmissível, se nunca
poderia fazer”. Esse entendimento, no entanto,
permanece na linha do horizonte, como destaca a
comparação de outro heterônimo, Álvaro de
Campos: “compreender é um navio ao longe”.
Porque compreender é um navio ao longe,
os argumentos céticos assumem-se metafóricos:
olham de lado mas com os dois olhos, como se
tivessem um rosto cubista. Talvez apenas por
meio de argumentos céticos as contradições
inerentes a qualquer concepção consciente de
mundo se revelem e, em conseqüência, possam ser
momentaneamente superadas, sem que resolvam as
aporias ou deneguem os enigmas.
Assim como a
posição do narrador e do poeta não é soberana, e
talvez resida nessa circunstância sua força
simbólica, também devemos admitir que a posição
do cético não pode ser soberana, sequer
constante. O que há são perspectivas ambíguas,
horizontes de desejos, palavras como sombra das
coisas. Por isso o ceticismo, para Bertrand
Russell, é logicamente impecável, mas
psicologicamente impossível: seria frívola e
insincera a filosofia que o pretendesse aceitar
integralmente.
Não podemos ser céticos o tempo todo, não
podemos ser céticos sequer na maior parte do
tempo. Segundo Kojève, “o ceticismo só pode
tornar-se uma atitude discursiva permanente e
universal com a condição de transformar-se em
dogmatismo. Eis porque o ceticismo autêntico só
se propõe em certos lugares e em certos
momentos, mas não pode impor-se em todos os
lugares e em todos os momentos”.
Pascal já dissera algo bastante semelhante:
“nada fortalece mais o pirronismo do que o fato
de haver quem não seja pirrônico. Se todos o
fossem, eles ficariam sem razão”.
Enquanto as filosofias dogmáticas supõem
implicitamente a possibilidade de cada uma ser a
única a ter razão, logo, que todos deveriam
segui-la, o ceticismo é forçado a abdicar dessa
possibilidade e, conseqüentemente, de qualquer
pretensão a hegemonia ou unanimidade. Por isso,
não faz sentido se pensar em uma eventual
vitória do ceticismo.
A epoché cética,
porém, não implica distanciamento de todos os
valores, sob pena de o cético se supor um ser
fora do mundo e da humanidade. Diante da guerra
no Iraque, de um linchamento no Rio de Janeiro
ou do apedrejamento de uma adúltera na África, o
cético muito provavelmente se choca, entendendo
os eventos como manifestações de ódios
irracionais que não se tem porque aceitar
tranqüilamente.
A epoché, para o cético, não implica tolerância
total em nome de um suposto respeito relativista
aos costumes alheios. Só que o cético, ao se
indignar, precisa suspeitar igualmente da
própria indignação, reconhecendo que a
indignação costuma freqüentar as vésperas do
fanatismo.
Historicamente, o ceticismo são vários:
há o ceticismo acadêmico, pirrônico, efético,
fideísta, mitigado, antigo, moderno, moral,
religioso. Mas, grosso modo, podemos agrupar os
ceticismos em três grandes momentos históricos:
contemporâneo, renascentista e antigo.
Contemporaneamente, o ceticismo se fortalece a
partir da ciência moderna e faz face com o
ateísmo; no final da Idade Média e no
Renascimento, o ceticismo foi invocado para, ao
contrário, sustentar a fé em detrimento da
Razão; entre os filósofos pré-socráticos, na
Grécia antiga, nasceu para reagir ao conflito
das filosofias. Em cada uma destas épocas,
porém, o ceticismo é violentamente rejeitado,
ora porque contém em si uma contradição interna
insuperável, ora porque sua suposta vitória
implicaria a derrota dos sistemas filosóficos e
das instituições fundadas a partir desses
sistemas. Por isso os ataques tendem a reduzir o
cético àquele que não acredita em nada, àquele
que nega a realidade substancial e a existência
de princípios morais válidos.
Na linha de
defesa, um dos seus principais estudiosos, o
filósofo americano Paul Kurtz, adjetiva o
ceticismo para melhor sustentá-lo. Quando
defende o ceticismo da acusação de niilismo,
Kurtz primeiro aceita parte da acusação,
considerando que de fato o cético pode ir longe
demais no seu ceticismo. Por isso, a primeira
frase do seu livro The New Skepticism
afirma: “ceticismo, como todas as coisas, é bom
se usado com moderação”.
O ceticismo vale enquanto moderado, ou mitigado,
como queria Hume. A pílula cética, se tomada em
excesso, conduz à dúvida arrogante que acaba por
não ser mais dúvida: adquire-se a certeza de que
a realidade não é real. A pílula cética é
portanto a pílula vermelha que Morpheus ofereceu
a Neo em The Matrix. Se Neo tomasse a
pílula azul, acordaria e não se lembraria de
nada; continuaria sua vida virtual seguro de que
ela fosse real.
Ele tomou, porém, a pílula
vermelha: you stay in Wonderland. And I’ll
show you how deep the rabbit hole goes – “você
está no País das Maravilhas.
E eu lhe mostrarei o fundo
do buraco do coelho”. Aludia Morpheus àquele
coelho de Lewis Carroll que levou a menina Alice
a uma realidade totalmente diferente.
O ceticismo não
precisa ser visto como a representação
metafísica da impossibilidade de conhecer a
realidade última, nem precisa conduzir a
impasses epistemológicos que desemboquem no
niilismo. Antes, ele deve ser considerado como
uma regra metodológica básica: sem ela, estamos
prontos a despencar na desilusão complacente e,
em conseqüência, no dogmatismo; com ela, se
usada com prudência, avançamos nas fronteiras da
investigação e tiramos benefícios para a vida
prática. Para Kurtz, se apossar da Verdade
dogmaticamente não difere muito de se apossar da
Não-Verdade. Por isso, a seu “novo ceticismo”
ele prefere chamar de skeptical inquiry,
expressão que podemos traduzir como
“investigação cética”.
Em termos etimológicos, a expressão de Kurtz
parece pleonástica, porque o termo ceticismo
deriva do grego sképsis, que significaria
“investigação”. Na verdade, o termo
“investigação” é segundo, derivando do sentido
primeiro, “observação”. Sképsis vem de
sképtomai, verbo cujo sentido denotativo
inclui as noções de “voltar o olhar para”,
“olhar atentamente”, “considerar”, “observar”. O
mesmo verbo pode ser usado com os sentidos
figurados de “examinar”, “meditar”, “refletir”.
Logo, o substantivo sképsis significa
também “exame”, “reflexão”, “especulação”,
“meditação”. Skeptikós, portanto, é
aquele que observa, que reflete, que gosta de
examinar – significados praticamente opostos à
acepção popular do termo, que entende o cético
como “aquele que não acredita em nada”.
Skeptical inquiry,
a expressão de Kurz, mostra-se então
conveniente, chamando a atenção para o vínculo
perdido entre o ceticismo e a procura da
verdade. A investigação permanente é necessária
porque parece ser muito mais difícil descobrir o
que a realidade é do que saber o que a realidade
não é. Paul Watzlawick explica a dificuldade
através da seguinte metáfora: o capitão de um
navio deve cruzar um estreito de mar durante uma
noite de tempestade, mas não conhece a
configuração do estreito. Se o capitão bate
contra os recifes e perde seu barco, o naufrágio
demonstra, sem sombra de dúvida, que o roteiro
escolhido não era o correto. Se o capitão
passa pelo estreito com o navio, só está
demonstrado que o roteiro escolhido não o levou
a se chocar com nenhum recife. O êxito não
ensina muito ao capitão sobre a verdadeira
configuração do estreito: ele não tem como saber
se esteve, ou não, próximo da catástrofe. É
fácil imaginar que haveria roteiros muito mais
seguros. De certa maneira, o naufrágio é mais
pedagógico: ensina onde há recifes.
Watzlawick, em
artigo sobre profecias que se autocumprem,
comenta que elas desmontam o pensamento causal
tradicional ao acontecerem de modo bem mais
constante do que pensamos. Se alguém supõe que é
desprezado e por causa disso se comporta de modo
desconfiado, provoca nos que o cercam exatamente
o desprezo que supunha. Os jovens que, em tempos
de recessão, abandonam a universidade por
acharem que não vão encontrar emprego, acabam
arruinando toda possibilidade de uma boa
colocação. Um ato que resulta de uma profecia
que se autocumpre cria primeiro as condições
para que se dê o sucesso esperado ou temido, e,
nesse sentido, termina por criar a realidade. O
ato resultante não se pode dizer nem verdadeiro
nem falso, posto que a situação criada cria
junto a verdade conseqüente.
Podem-se multiplicar exemplos. O Estado cria
impostos sobretaxados, prevendo a sonegação;
sentindo-se lesados, cidadãos honestos sentem-se
impelidos a sonegar. A escola reprime a prática
da cola, mas o faz com tanta convicção que torna
a cola uma prática usual. Thomas Szasz e outros
críticos da psiquiatria estudaram as muitas
formas de construção da loucura e de loucos pelo
próprio aparelho psiquiátrico. Profecias que se
autocumprem são ficções involuntárias. O padrão
já se encontrava em Édipo-Rei, de
Sófocles: cada tentativa do personagem de fugir
da profecia o fazia aproximar-se de cumprir a
profecia. Todavia, o destino não precisa nos
esmagar, como na tragédia, se tornamos
minimamente conscientes as nossas ficções e
percebemos um pouco melhor a parte que nos cabe
na construção da realidade e, em conseqüência,
do destino. A postura cética não
desresponsabiliza, mas todo o contrário, já que
se faz necessário pensar e agir não a partir de
cômodos princípios gerais e totalizantes, mas
sim caso a caso, situação por situação.
Renato Lessa, no
livro Agonia, aposta e ceticismo,
relaciona estreitamente ceticismo a
responsabilidade, entendendo que a relevância da
indagação e do trabalho filosófico no campo das
ciências sociais se dá a partir de um imperativo
duplo: “não desconhecer os fenômenos e objetos
da vida ordinária e percebê-los, ao mesmo tempo,
como itens contingentes de apenas um dos muitos
mundos possíveis”.
Enquanto o primeiro imperativo impede um
relativismo de tipo “total” no qual nada possua
qualquer valor de referência, o segundo
imperativo impede que se reifiquem os fenômenos
considerados a partir no primeiro momento. De
fato, a defesa de um relativismo de tipo
absoluta é contraditória nos próprios termos,
logo, não pode ser formulada sem paradoxo: se o
relativismo é verdadeiro, o próprio relativismo
não pode ser verdadeiro. Na verdade, toda
verdade exige algum tipo de medida que, por sua
vez, exige algum tipo de acordo prévio. Mesmo um
desacordo, para ser compreendido e equacionado
como tal, requer um acordo em algum momento
anterior: ainda que Fulano considere que está
frio e Sicrano entenda que está quente, ambos
partem de idéias convergentes do que seja
“quente” e “frio”, sem o que não poderiam sequer
começar a discordar. Quando absolutizam a
própria relatividade, os relativistas se tornam
dogmáticos. Sextus Empiricus já distinguira as
atitudes dos absolutistas e dos relativistas da
atitude dos céticos. Enquanto absolutistas crêem
que a verdade seja una e encouraçada,
relativistas a afirmam inexistente ou múltipla:
ambos incorrem em erro. Diante da proliferação
dessas certezas suspeitas, cabe ao cético
investigar. O cético não se pode contentar com a
afirmação fácil de que todas as verdades seriam
iguais ou equivalentes.
O cronista Luís
Fernando Veríssimo procura manter a esperança na
política reservando-se o direito a um suporte
cético constante, o que ele defende recorrendo a
uma metáfora médica, a do Isordil. Lamentando o
fuzilamento de oposicionistas na ilha de Cuba, o
cronista lembra o terror que se seguiu à
Revolução Francesa e as decepções sofridas pelos
idealistas do mundo todo com os massacres
stalinistas. Conclui que a solução, para quem
quer continuar a crer sem se desiludir demais,
está em se engajar nos princípios de liberdade,
igualdade e fraternidade, mas mantendo sempre à
mão, como um Isordil, o ceticismo.
Na mesma linha, Alberto Dines critica a euforia
do Presidente da República ao final de 2003,
afirmando que “o tempo da incerteza não passou,
ao contrário do que afiança o chefe da nação no
seu papel de Grande Narrador”. A marca de nosso
tempo relaciona-se com o fim das certezas:
indispensável duvidar, disputar, desconfiar,
debater. No seu entender, “ceticismo é o remédio
do momento”, retomando o caráter terapêutico da
postura cética. Os verdadeiramente sábios devem
recusar a onisciência: “se o Lula salvacionista
que ganhou as eleições for substituído por um
Lula mais sensível e mais perplexo, ganha o Lula
e ganhamos nós”.
O filósofo Hilton
Japiassu lembra que no curso da História o
dogmatismo – a convicção de deter a verdade
associada à necessidade de impô-la aos outros –
matou mais do que qualquer outra causa. Matou-se
em nome de Deus, de Alá ou de princípios
nazistas. É preciso recordar Kant, que
considerava o dogmatismo a marcha “que segue a
razão pura sem ter feito uma crítica prévia de
seu poder próprio”.
Nada é tão perigoso quanto a certeza de ter
razão, nada causa tanta destruição quanto a
obsessão de uma verdade considerada absoluta.
Todos os crimes da história são conseqüência de
algum fanatismo, todos os massacres cometidos
por virtude, sempre em nome da religião
verdadeira, ou do nacionalismo legítimo, ou da
ideologia mais justa.
Não é acidental que movimentos pautados em
alegações absolutistas e universalistas
respondam às condições de emergência e às
imprevisíveis aflições humanas com seu
dogmatismo auto-refutador. Em conseqüência,
acabam respondendo às perspectivas divergentes
como se fossem produto de naturezas humanas
desviantes, o que logo os autoriza a promoverem
cismas, purgações e supressões – no limite,
assassinatos e genocídios.
Japiassu raciocina
na direção do ceticismo ao admitir não existir
possibilidade de uma realização completa da
objetividade porque, se houvesse, nos
depararíamos com o caso absurdo, esse sim, de um
sujeito objetivo. A ciência então “perderia sua
razão de ser, pois sendo um processo de produção
de conhecimentos, perderia sua processualidade
e, por conseguinte, deixaria de ser ciência,
posto já possuir a verdade em sua objetividade
pura e simples”.
Nesse caso, a objetividade pode ser definida
como uma ilusão do sujeito de que a objetividade
exista sem ele.
A ciência não pode ser objetiva, no sentido
absoluto do termo, porque o sujeito que descreve
o fenômeno é parte do fenômeno descrito, isto é,
o sujeito é condição do objeto.
De acordo com Karl
Popper, a provisoriedade das teorias é
precisamente a condição de sua cientificidade. O
epistemólogo substituiu o ideal positivista da
verificabilidade pela ousada concepção da
refutabilidade, ou falsificabilidade. A
preocupação dos cientistas diante de uma teoria
deve residir menos na sua sustentação do que na
busca corajosa dos pontos negativos.
Contrariamente ao horóscopo que funciona sempre,
porque suas previsões são vagas o bastante para
se encaixarem em qualquer situação, uma teoria
científica não apenas pode não funcionar, como
em determinado momento deve não funcionar. A
refutabilidade popperiana é uma espécie de
antídoto da teoria científica, impedindo essa
teoria de transformar-se em uma retórica fechada
em si própria.
A refutação como método, para Japiassu, nega a
possibilidade da verdade absoluta, mas isso “não
significa negar absolutamente a verdade, o que
seria outro tipo de posição dogmática ou de
obscurantismo”.
O filósofo considera que “o mundo só é pensado
porque nós o pensamos. Não sabemos se seria
pensado nele mesmo. O que podemos saber é que é
possível torná-lo inteligível pela Razão”.
Cita a respeito o monge-detetive de O nome da
rosa, romance de Umberto Eco: “somente a fé
responde a tudo, mas evitando as questões. Se
queres viver o caminho da razão, precisarás
aceitar os pontos de interrogação”.
Para pôr um ponto final nessa conversa,
ainda que provisoriamente, poderíamos dizer que
a balança da razão contém doses equivalentes de
fé (na realidade) e de dúvida (quanto à
realidade). Se essa balança se desequilibra para
o lado da fé, o cientificismo ou o fanatismo se
levantam para tomar a razão de assalto; se a
balança se desequilibra para o lado da dúvida, a
razão fica tomada pela convicção de que os
outros e a realidade ou não existem, ou estão
contra nós. Não podemos dispensar certa fé na
realidade, mas desde que não se transforme esta
fé em algum tipo de certeza dogmática. Ou seja:
a própria fé, num dos pratos da balança da
razão, deve ser alvo da dúvida, no outro prato.
Voltemos ao quadro de René Magritte, “A ponte de
Heráclito”. Na imagem, a ponte real como que se
interrompe no ar, ao tocar na névoa, não
conduzindo quem a atravesse, ou quem esteja
admirando o quadro, a lugar algum. O reflexo da
ponte na água do rio, porém, mostra uma ponte
completa, atravessando o rio. Temos certeza da
imagem da ponte, mas não temos qualquer certeza
da ponte ela mesma. Temos certeza do reflexo, do
sintoma, da conseqüência, mas não podemos ter
qualquer certeza da coisa que provoca o reflexo,
da doença que gera o sintoma, da causa que
produz a conseqüência. Atravessamos a ponte no
mesmo passo em que a inventamos no ar, vendo-a
abaixo de nós, no reflexo da água ou da arte.
Sabemos que somos aquele que atravessa a ponte,
mas fora disso não sabemos o que somos ou quem
somos. O cogito se mostra insuficiente,
nos obrigando a lembrar da sentença cartesiana
completa: dubito ergo sum, vel quod item est,
cogito ergo sum – em francês,
je doute donc j’existe, ou ce qui est la
même chose: je pense donc j’existe;
em português,
“duvido logo
existo, ou o que é o mesmo, penso logo existo”.
Sou porque penso, mas penso porque duvido, uma
vez que pensar é simplesmente igual a duvidar.
O terreno do cético
é o terreno da dúvida, onde também se encontra,
bem à vontade, a ficção, que por princípio põe
sob suspeita a própria realidade.
O cético, então, permanece nesse
terreno
da ficção, na posição em que o retratou o
haikai de Millôr Fernandes:
O cético
sábio
sorri
só com um
lábio.
- - -
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