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Senso comum versus Ciência
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Pessoas,
em geral, recorrem a suas próprias observações dos fatos cotidianos para
constituir um conjunto de conhecimentos que lhes permita entender, de forma mais
ou menos ordenada, como funciona o mundo em que vivem. Algumas, mais que outras,
defendem este empirismo como critério da verdade e tendem a adotar o senso comum
em detrimento do conhecimento científico.
Esta "ciência particular" tem seus desdobramentos em filosofias pessoais, nas
quais as generalizações levam a visões de mundo que se afastam ainda mais do
conhecimento científico e aproximam-se do misticismo e da pseudociência. Ainda,
o empirismo descolado do pensamento crítico reúne afinidades que logo fazem
surgir os líderes carismáticos, os falsos cientistas, as publicações de caráter
duvidoso e todo um séqüito de crédulos. Ora desvirtuam os conhecimentos
científicos e se apropriam indebitamente do rótulo da ciência; ora atacam o
racionalismo científico por sua incapacidade de conceber o "transcendente".
Não fossem os casos que, nesse contexto, tornam-se matéria policial, eu diria
que o empirismo acrítico do senso comum é um problema educacional. Um estado
laico deveria fomentar o desenvolvimento da educação científica.
Empirismo
Se eu acreditasse em deus, afirmaria que ele nos deu o sol para que
aprendêssemos a valorizar menos o senso comum e mais o pensamento científico. Se
observarmos a posição do sol durante o dia, veremos que ele se movimenta ao
redor da Terra. Isto é empírico. Nasce de um lado, move-se durante o dia e se
põe de outro lado. Entretanto, a ciência nos mostra que este movimento é
aparente, apenas uma ilusão. O contrário é verdadeiro. A Terra gira em torno do
sol e isso é explicado pela lei da gravitação universal.
Se encontrarmos uma barra de metal e uma barra de madeira, expostas á uma
temperatura ambiente de 15 graus, e tocarmos em ambas, o metal parecerá mais
frio do que a madeira. Concluiremos, empiricamente, que o metal está mais frio
do que a madeira. Mera ilusão. Na verdade, o metal é melhor condutor de calor
que a madeira e, por isso, o fluxo de calor que sai de nossa mão é maior quando
tocamos o metal. Logo, o equilíbrio térmico entre a mão e o metal acontecerá
mais rápido e, embora tudo indique que o ferro esfriou nossa mão, na verdade,
foi nossa mão que aqueceu o ferro pela transferência de calor. Isso é explicado
pelo princípio da condutibilidade térmica.
Assim como o sol e a barra de ferro, existe em nosso dia a dia uma série de
acontecimentos que sugerem, empiricamente, uma explicação que não corresponde à
realidade, ou seja, aos princípios comprovados pela Ciência ou investigados por
ela. Nossos sentidos não são, e nunca foram, os melhores instrumentos para
operar o desvio do concreto. Para completá-los ou suplementá-los, existe a
ciência.
É claro que esta regra não é absoluta e se aplica a casos especiais. Se eu
encontrar uma barata no banheiro, não preciso levá-la a um especialista para, só
depois, esmagar a cabeça dela. O que quero salientar é que os defensores da
"experiência pessoal", do empirismo descolado do pensamento crítico, normalmente
enxergam fantasmas onde existem apenas sombras.
Ensinando a pensar
O melhor que podemos fazer a favor da Ciência é lutar pela qualidade
do Ensino e ensinar as pessoas a pensar. Isso não significa arrebatar seguidores
ou doutrinar a favor de nossas convicções. Ao contrário, o pensamento crítico
permite uma independência que não isola, um raciocínio baseado no conhecimento
da lógica, uma personalidade inquiridora, uma investigação que procura
evidências sólidas.
Ao ensinarmos a pensar, formaremos gerações que nos sucederão no tempo, que
apontarão nossas falácias, nossos erros e darão prosseguimento à superação
contínua do conhecimento pelo conhecimento.
O pensamento crítico é a arma mais poderosa da Ciência e a única que deveria
entrar nas salas de aula.
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Editor do e-zine e membro ativo da
lista CeticismoAberto