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Sobre o Pseudo-ceticismo
Marcello Truzzi, publicado no The Zetetic Scholar, #12-13, 1987
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Ao longo dos
anos, tenho condenado o mau uso do termo "cético" quando usado para se referir a
todos os críticos de alegações sobre anomalias. Infelizmente o termo tem sido
abusado desta forma tanto por proponentes quanto por críticos do paranormal. Às
vezes os usuários do termo distinguem entre os assim chamados céticos "leves"
[soft] contra os céticos "duros" [hard], e eu reavivei em parte o termo
"zetético" por causa deste mau uso. Mas agora penso que os problemas criados vão
além de mera terminologia e a situação precisa ser passada a limpo. Uma vez que
"ceticismo" corretamente se refere à dúvida em lugar da negação -- não-crença em
lugar de crença -- críticos que tomam a posição negativa em lugar da agnóstica,
mas ainda se chamam "céticos", são de fato pseudo-céticos e têm, creio eu,
ganhado uma falsa vantagem usurpando esse rótulo.
Em ciência, o ônus da prova recai no alegador; e quanto mais extraordinária uma
alegação, mais pesado é o ônus da prova exigido. O verdadeiro cético toma uma
posição agnóstica, uma que diz que a alegação não está provada em lugar de
desprovada. Ele afirma que o alegador não sustentou o ônus da prova e que a
ciência deve continuar construindo seu mapa cognitivo da realidade sem
incorporar a alegação extraordinária como um "fato" novo. Considerando que o
verdadeiro cético não faz uma alegação, ele não tem nenhum ônus para provar
qualquer coisa. Ele apenas continua usando as teorias estabelecidas da "ciência
convencional" como sempre. Mas se um crítico afirma que há evidência para
refutação, que ele tem uma hipótese negativa -- dizendo, por exemplo, que um
aparente resultado psi era de fato devido a uma falha nos processos de controle
ou análise [artifact] -- ele está fazendo uma alegação e então também tem que
lidar com o ônus da prova. Às vezes, tais alegações negativas por críticos
também são bastante extraordinárias -- por exemplo, que um OVNI era de fato um
plasma gigantesco, ou que alguém em uma experiência psi obtinha pistas por uma
habilidade anormal de ouvir tons altos que outros com ouvidos normais não
notariam. Em tais casos o alegador negativo também deve ter que lidar com um
ônus de prova mais pesado que o normalmente esperado.
Críticos que fazem alegações negativas, mas que erradamente se chamam "céticos",
freqüentemente agem como se não tivessem absolutamente nenhum ônus da prova
sobre eles, ainda que tal posição só seria apropriada para o cético agnóstico ou
verdadeiro. Um resultado disto é que muitos críticos parecem sentir que só é
necessário apresentar um caso para sua contra-alegação fundado em plausibilidade
em lugar de evidência empírica. Assim, se pode ser demonstrado que um indivíduo
em uma experiência psi teve uma oportunidade para fraudar, muitos críticos
parecem assumir não somente que ele provavelmente fraudou, mas que deve ter
fraudado, apesar do que pode ser uma ausência completa de evidência de que ele
realmente fraudou e algumas vezes até mesmo ignorando evidência da reputação
passada do indivíduo de honestidade. Similarmente, às vezes procedimentos de
randomização impróprios são assumidos como sendo a causa de indicadores psi
altos de um indivíduo, embora tudo que tenha sido estabelecido seja a
possibilidade de que tal efeito tenha sido a causa real. É claro, o peso
evidencial da experiência está muito reduzido quando nós descobrimos uma falha
em seu projeto que permitiria que um efeito confundisse os resultados. Descobrir
uma oportunidade de erro deveria fazer tais experimentos menos evidenciais e
normalmente não convincentes. Isso normalmente contesta a alegação de que a
experiência era "à prova de erro", mas não contesta a alegação de anomalia.
Mostrar que uma evidência não é convincente não é suficiente para descartá-la
completamente. Se um crítico afirma que o resultado era devido à falha X, esse
crítico tem então o ônus da prova de demonstrar que a falha X pode e
provavelmente produziu tal resultado sob tais circunstâncias. É verdade que em
alguns casos a atração pela mera plausibilidade de que uma falha produziu o
resultado pode ser tão grande que quase todos aceitariam o argumento; por
exemplo, quando nós descobrimos que alguém que fraudou no passado teve uma
oportunidade de fraudar neste caso, poderíamos concluir razoavelmente que ele
provavelmente também fraudou desta vez. Mas em muitos casos o crítico que faz um
argumento meramente plausível para uma falha fecha a porta em pesquisas futuras
quando a ciência apropriada exige que sua hipótese de uma falha também deveria
ser testada. Desafortunadamente, a maioria dos críticos parece feliz em sentar
em suas poltronas produzindo explicações post hoc. Seja que lado termine com a
história verdadeira, a ciência progride melhor através de investigações em
laboratório.
Por outro lado, proponentes de uma alegação de anomalia que reconhecem a falácia
anterior podem ir muito longe na outra direção. Alguns argumentam, como Lombroso
quando ele defendeu a mediunidade de Palladino, que a presença de peruca não
nega a existência de cabelo de verdade. Todos nós temos que nos lembrar de que a
ciência pode nos contar o que é empiricamente improvável, mas não o que é
empiricamente impossível. Evidência em ciência sempre é uma questão de grau e
raramente é, se é que é alguma vez, absolutamente conclusiva. Alguns proponentes
de alegações de anomalias, como alguns críticos, parecem pouco dispostos em
considerar evidências em termos probabilísticos, agarrando-se a qualquer fio
solto como se o crítico tivesse que contestar toda a evidência avançada para uma
alegação particular. Tanto críticos quanto proponentes precisam aprender a
pensar em adjudicação na ciência mais como a encontrada nos tribunais de lei,
imperfeita e com graus variados de prova e evidência. Verdade absoluta, como
justiça absoluta, raramente é alcançável. Nós podemos apenas fazer o melhor que
podemos para nos aproximar delas.
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Nota do editor CA: Marcello Truzzi
veio a falecer no dia 2 de fevereiro de 2003 aos 67 anos de idade. Ele foi um
dos fundadores do movimento cético moderno, criando o periódico Zetetic
e sendo, lado a lado com Paul Kurtz, fundador e co-presidente do CSICOP,
organização que deixou pouco tempo depois devido a discordâncias em abordagens
como a exposta no comentário acima. Ele criou então o Center for Scientific
Anomalies Research e o The Zetetic Scholar.
Truzzi foi rigoroso tanto com críticos quanto com defensores de "anomalias"
durante toda sua vida, condenando os excessos dos dois lados, o que não
paradoxalmente revelava uma abordagem saudavelmente aberta e flexível. A perda é
enorme para todos nós.