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- A Caixa de Skinner

A
nossa inclinação a descobrir significado e padrão na coincidência, quer haja um
verdadeiro significado, quer não, faz parte de uma tendência mais geral de
procurar padrões. Essa tendência é louvável e útil. Muitos eventos e
características no mundo são realmente padronizados de uma forma não aleatória,
sendo proveitoso para nós, e para os animais em geral, detectar esses padrões. A
dificuldade é navegar entre detectar um padrão aparente onde não existe nenhum,
e não detectar o padrão onde ele existe. Em grande parte, a ciência da
estatística diz respeito a saber orientar-se nessa difícil rota. Todavia, muito
antes que os modernos métodos estatísticos fossem formalizados, os humanos e até
outros animais eram estatísticos intuitivos bastante bons. Entretanto, é fácil
cometer erros em ambas as direções.
Não somos os únicos animais a procurar padrões estatísticos de não-aleatoriedade
na natureza, e não somos os únicos animais a cometer erros do tipo que poderia
ser chamado de supersticioso. Esses dois fatos são claramente demonstrados no
aparelho chamado caixa de Skinner, em referência ao famoso psicólogo americano
B. F. Skinner. Uma caixa de Skinner é um equipamento simples, mas versátil, para
estudar geralmente a psicologia de um rato ou de uma pomba. É uma caixa com uma
chave ou chaves introduzidas numa das paredes, as quais a pomba (por exemplo)
pode operar dando bicadas. Há também um aparelho de alimentação (ou de
recompensas) que é eletricamente operado. Os dois estão conectados de tal modo
que a bicada da pomba tem alguma influência sobre o aparelho de alimentação. No
caso mais simples, toda vez que a pomba dá uma bicada na chave, ela ganha
comida. As pombas aprendem rapidamente a tarefa. O mesmo acontece com ratos e,
em caixas de Skinner reforçadas e adequadamente aumentadas, com os porcos.
Sabemos que a ligação causal entre a bicada na chave e a alimentação é gerada
por um aparelho elétrico, mas a pomba não sabe. No que diz respeito à pomba, dar
uma bicada na chave bem que poderia ser uma dança da chuva. Além disso, a
ligação pode ser um elo estatístico bem fraco. O aparelho pode ser preparado
para que, em vez de cada bicada ser recompensada, apenas uma em dez bicadas
receba recompensas. Isso pode significar literalmente a cada dez bicadas. Ou,
com um arranjo diferente do aparelho, pode significar que em média uma em dez
bicadas recebe recompensas, mas em qualquer dada ocasião o número exato de
bicadas exigido é determinado aleatoriamente. Ou talvez haja um relógio que
determina o décimo de tempo, em média, em que uma bicada vai conseguir
recompensas, contudo é impossível dizer qual será esse décimo de tempo. As
pombas e os ratos aprendem a pressionar chaves mesmo que, em nossa opinião,
fosse preciso ser um bom estatístico para detectar a relação entre causa e
efeito. Podem ser treinados para um programa em que apenas uma proporção muito
pequena de bicadas seja recompensada. É interessante observar que os hábitos
aprendidos quando as bicadas são apenas ocasionalmente recompensadas apresentam
maior duração que os hábitos aprendidos quando todas as bicadas são
recompensadas: a pomba é desencorajada menos rapidamente quando o mecanismo de
recompensas é totalmente desligado. Isso faz sentido intuitivamente, se
pensarmos a respeito.
As pombas e os ratos são, portanto, estatísticos muito bons, capazes de captar
tênues leis estatísticas de padrões no seu mundo. É presumível que essa
capacidade lhes traga vantagens na natureza, assim como na caixa de Skinner. As
ações de um animal selvagem não raro são seguidas por recompensas, punições ou
outros acontecimentos importantes. A relação entre causa e efeito freqüentemente
não é absoluta, e sim estatística. Se um maçarico-de-bico-torto sonda a lama com
seu bico longo e curvo, há uma certa probabilidade de que vá pegar uma minhoca.
A relação entre os eventos de sondagem e os de encontrar minhocas é estatística,
mas real. Toda uma escola de pesquisa sobre animais tem se desenvolvido em torno
da assim chamada Teoria da Forragem Ótima (Optimal Foraging Theory). Os pássaros
selvagens demonstram ter capacidades bastante sofisticadas de avaliar,
estatisticamente, a relativa riqueza em alimentos de diferentes áreas e de
dividir o seu tempo entre as áreas de acordo com essa avaliação.
De volta ao laboratório, Skinner fundou uma grande escola de pesquisa usando
caixas de Skinner para todos os tipos de finalidades detalhadas. Depois, em
1948, ele tentou uma genial variante da técnica padrão. Cortou completamente o
elo causal entre o comportamento e a recompensa. Preparou o aparelho para
recompensar a pomba de tempos em tempos, não importava o que o pássaro fizesse.
Agora, o que os pássaros precisavam realmente fazer era só pousar e esperar a
recompensa. Mas na realidade, não foi isso o que fizeram. Pelo contrário, em
seis dentre oito casos, eles desenvolveram - exatamente como se estivessem
aprendendo um hábito recompensado - o que Skinner chamou de comportamento
supersticioso. Em que isso precisamente consistia, variava de pomba para pomba.
Um dos pássaros girava como um pião, dando duas ou três voltas no sentido
anti-horário, no intervalo entre as recompensas. Outro pássaro repetidamente
lançava a cabeça na direção de um determinado canto no alto da caixa. Um
terceiro exibia um comportamento de atirar-se para o alto, como se estivesse
levantando uma cortina invisível com a cabeça. Dois deles desenvolveram
independentemente o hábito rítmico do "balanço do pêndulo", oscilando a cabeça e
o corpo de um lado para o outro. Eventualmente, este último hábito deve ter se
assemelhado bastante à dança de namoro de algumas aves-do-paraíso. Skinner usou
a palavra superstição porque os pássaros se comportavam como se achassem que o
seu movimento habitual tivesse uma influência causal sobre o mecanismo de
recompensa, quando na verdade isso não ocorria. Era o equivalente da dança da
chuva para as pombas.
Um hábito supersticioso, uma vez estabelecido, podia persistir por horas, muito
tempo depois de o mecanismo de recompensa ter sido desligado. Entretanto, os
hábitos não persistiam inalterados na forma. Num caso típico, o hábito
supersticioso da pomba começou como um movimento brusco da cabeça da posição do
meio para a esquerda. Com o passar do tempo, o movimento se tornou mais
enérgico. Por fim, todo o corpo se movia na mesma direção, e as patas davam um
ou dois passos para o lado. Depois de muitas horas de "variação topográfica",
esses passos para a esquerda se tornaram a característica predominante do
hábito. Os próprios hábitos supersticiosos podem ter se derivado do repertório
natural da espécie, mas ainda é justo afirmar que executá-los nesse contexto, e
executá-los repetidas vezes, não é natural para as pombas.
As pombas supersticiosas de Skinner estavam se comportando como estatísticos,
mas estatísticos que tinham chegado à conclusões errôneas. Estavam alertas à
possibilidade de ligações entre os acontecimentos no seu mundo, especialmente
entre as recompensas que desejavam e as ações que tinham capacidade de
empreender. Um hábito, como impelir a cabeça para o alto num canto da gaiola,
começou por acaso. O pássaro realizava esse movimento minutos antes de o
mecanismo de recompensa entrar em ação. É bastante compreensível que o pássaro
tenha desenvolvido a hipótese expeculativa de que havia uma ligação entre os
dois acontecimentos. Por isso, impeliu a cabeça para o canto mais uma vez. Sem
dúvida, pela sorte do mecanismo de sincronização de Skinner, a recompensa
apareceu de novo. Se o pássaro tivesse tentado o experimento de não impelir a
cabeça para o canto, teria descoberto que receberia recompensa de qualquer modo.
Mas teria sido necessário um estatístico melhor e mais cético do que muitos de
nós, humanos, para tentar esse experimento.
Skinner compara as pombas com apostadores humanos que desenvolvem pequenos
"tiques" da sorte ao jogar cartas. Esse tipo de comportamento é também um
espetáculo familiar em uma pista de bocha. Depois que a bola grande de madeira
deixou a mão do jogador, não há nada mais que ele possa fazer para estimulá-la a
se mover em direção ao bolim, a bola-alvo. Ainda assim, jogadores experientes
quase sempre correm atrás da bola de madeira, freqüentemente ainda na posição
inclinada, torcendo e virando o corpo como se para dar instruções desesperadas à
bola, agora indiferente, e muitas vezes repetindo palavras vãs de encorajamento.
Uma máquina caça-níqueis em Las Vegas é nada mais que, nada menos, que uma caixa
de Skinner. "Dar uma bicada na chave" não é representado apenas pelo ato de
puxar a alavanca, mas também é claro, pelo de colocar dinheiro na fenda. É
realmente um jogo de tolos, pois sabe-se que as probabilidades estão arrumadas a
favor do cassino -- de que outro modo o cassino conseguiria pagar suas imensas
contas de eletricidade? É determinado aleatoriamente se um dado puxão na
alavanca vai produzir a sorte grande ou não. Uma receita perfeita para hábitos
supersticiosos. Sem dúvida, observando jogadores aficionados de Las Vegas,
vêem-se movimentos que lembram muito as pombas supersticiosas de Skinner. Alguns
falam com a máquina. Outros lhe fazem sinais engraçados com os dedos,
acariciam-na ou lhe dão palmadinhas com as mãos. Certa vez lhe deram
palmadinhas, e ganharam a sorte grande, e disso jamais se esqueceram. Tenho
observado aficionados de computador, impacientes à espera da resposta do
servidor, comportando-se de modo semelhante, por exemplo, batendo no terminal
com os nós dos dedos.
Como podemos saber quais são os padrões aparentes genuínos, e quais os
aleatórios e sem significado? Existem métodos, e eles pertencem à ciência e ao
projeto experimental.
Um erro chamado de "falso negativo", consiste em deixar de detectar um efeito
quando ele realmente existe. Um erro "falso positivo", ao contrário, consiste em
concluir que algo está realmente acontecendo, quando na verdade não existe nada
senão aleatoriedade.
As pombas supersticiosas de Skinner cometiam erros falsos positivos. Não havia
nenhum padrão em seu mundo que ligasse verdadeiramente as suas ações aos
resultados do mecanismo de recompensa. Mas elas se comportavam como se tivessem
detectado esse padrão. Uma pomba "achava" (ou se comportava como se achasse) que
dar passos para a esquerda faria funcionar o mecanismo de recompensa. Outra
"achava" que atirar a cabeça para um canto tinha o mesmo efeito benéfico. As
duas estavam cometendo erros falso positivos. Um erro falso negativo é cometido
por uma pomba que nunca percebe que dar uma bicada na chave produz alimentos se
a luz vermelha estiver acesa, mas que uma bicada com a luz azul acesa causa uma
punição, desligando o mecanismo por dez minutos. Há um padrão esperando por ser
detectado no pequeno mundo da caixa de Skinner, porém nossa pomba não o
detecta.
Um erro falso negativo é cometido por um agricultor que deixa de perceber que há
no mundo um padrão relativo a adubar um campo para a subseqüente colheita
daquele campo. Um erro falso positivo é cometido por um agricultor que pensa
provocar chuva, oferecendo sacrifícios aos deuses. Na verdade, não há nenhum
padrão no seu mundo, mas ele não descobre esse dado da realidade e persiste nos
seus sacrifícios inúteis e devastadores. De vez em quando, por acaso chuvas se
seguem a rituais, e esses raros lances de sorte ficam gravados na memória.
Quando o ritual não é seguido por chuva, assume-se que algum detalhe deu errado
na cerimônia, ou que os deuses estão zangados por alguma outra razão: é sempre
fácil encontrar uma desculpa bastante plausível.
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