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O "Gaseador Louco" de Mattoon
Robert E. Bartholomew, publicado em
REALL News, abril/1999
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Com a exceção
do pânico marciano em 1938 desencadeado pela dramatização radiofônica de Orson
Welles de Guerra dos Mundos, Mattoon em Illinois provavelmente possui a honra de
ter sido palco da ilusão em massa do século vinte mais amplamente discutida nos
EUA -- pelo menos entre aqueles que se especializam em estudar tais fenômenos.
Durante agosto de 1944, vários residentes de Mattoon disseram ter sido atacados
por um gaseador misterioso que temporariamente fazia suas vítimas ficarem
doentes. Em anos recentes alguns autores até mesmo afirmaram que o gaseador
louco de Mattoon era uma entidade paranormal ou envolveu um sujeito ou gaseador
real que iniciou o incidente. Porém, estas afirmações foram feitas sem uma
compreensão completa do contexto do episódio e teorias básicas de psicologia
social. Deste modo, o incidente do Geaseador de Mattoon se assemelha a
avistamentos em massa de aeróstatos
imaginários sobre o estado de Illinois durante 1897.1 Para pessoas que
desconhecem psicologia social básica e o contexto da onda de aeróstatos, pode
parecer perfeitamente lógico que os aeróstatos eram na verdade discos voadores
mal interpretados por uma população influenciada pela mídia popular e esperando
ver aeróstatos. De fato, muitos pesquisadores de OVNIs defendem esta idéia.
Uma Breve Descrição do Gaseador de Mattoon
Virtualmente todo estudante de cursos sobre comportamento coletivo ouviu falar
do episódio de Mattoon, que é facilmente o caso mais amplamente citado de
histeria em massa durante os últimos cinqüenta anos. Logo após ter aparecido
pela primeira vez como um artigo em uma edição de 1945 do Journal of Abnormal
Psychology, o caso foi rapidamente reconhecido como um clássico. Foi citado na
vasta maioria de livros de ensino sobre psicologia social introdutória e
sociologia que contêm discussões sobre comportamento coletivo, e a maioria dos
livros dedicados somente a comportamento coletivo.2
Era perto de meia-noite em uma quinta-feira, 31 de agosto de 1944, quando a
polícia de Mattoon recebeu um telefonema de uma mulher e sua filha que diziam
ter sido atacadas por uma figura espreitando nas sombras próxima de sua casa.
Depois que elas abriram uma janela do quarto, a casa foi supostamente borrifada
com um gás nauseante de cheiro doce que as deixou tontas e atordoadas. A mãe
também disse que sofreu uma leve paralisia temporária em suas pernas. A polícia
investigou, mas não encontrou nenhuma evidência do intruso. Duas horas depois a
polícia novamente correu para a casa depois que o marido da mulher, ao voltar
para casa, viu um homem suspeito correndo perto da janela onde o incidente
original tinha acontecido. Novamente a polícia não encontrou nada relevante.
No dia 2 de setembro os editores do Mattoon Daily Journal-Gaztte publicaram a
manchete: "Rondador Anestésico à Solta". Depois de ler a história, duas famílias
de Mattoon contataram a polícia com relatos semelhantes de serem gaseadas em
suas casas pouco antes do incidente. Durante os próximos dias, a polícia foi
inundada com numerosos relatos de gaseamento, que com o tempo diminuíram e
cessaram completamente depois de 12 de setembro. 3 Durante as primeiras duas
semanas de setembro, a polícia de Mattoon recebeu um total de 25 relatos
separados envolvendo 27 mulheres e dois homens afirmando ter sido borrifados com
o enigmático gás debilitante por alguém que se tornou amplamente conhecido como
"o anestesista fantasma" e "o gaseador louco de Mattoon". Johnson descreveu a
série de relatos como um episódio de histeria em massa, notando que 93 por cento
das "vítimas" eram mulheres de baixo status socioeconômico que não eram críticas
ao avaliar a situação, e concluindo que elas estavam exibindo reações de
conversão histéricas. Os sintomas passageiros informados por aqueles "gaseados"
estavam limitados a náusea, vômito, boca seca, palpitações, dificuldade em
caminhar e, em um caso, uma sensação ardente na boca. Estes sintomas podem ser
explicados como ansiedade gerada pela publicidade do "gaseador", enquanto uma
série de casos iniciais envolveram a redefinição de reações físicas mundanas que
ordinariamente teriam passado sem nota, mas que foram subseqüentemente
atribuídas ao anestesista fantasma. Johnson fornece dois exemplos deste último
processo. 4
O sociólogo de Illinois David L. Miller reexaminou os informes originais de
imprensa do Mattoon Daily Journal-Gazette e descobriu alguns achados
interessantes. Miller disse que vários repórteres que vieram a cobrir o episódio
relataram ter dores de cabeça que eles acreditavam ter sido causadas pelo
gaseador, contudo eles não foram contados como vítimas por serem homens. Miller
também descobriu que durante vários "ataques", os maridos estavam acompanhando
suas esposas, e enquanto ambos sofreram os efeitos do gás, só as esposas foram
contadas como vítimas, lançando suspeita na presença de histeria epidêmica. Por
que isto é importante? Porque Johnson confirmou a presença de desordem de
conversão (histeria epidêmica) ao observar que a maioria das vítimas era do sexo
feminino (mulheres são supostamente mais propensas a sofrer histeria, mas esta
alegação permanece contenciosa entre a maioria dos sociólogos e feministas, por
razões muito detalhadas para abordar aqui). Miller também notou que à luz destes
pontos, a mídia inicialmente definiu as mulheres como os objetivos percebidos, o
que pode ter levado a uma profecia que cumpre a si mesma. Por conseguinte,
seguindo o caso inicial sensacional e a subseqüente procura da polícia pelo
gaseador que recebeu cobertura de jornal espetacular, residentes, especialmente
as mulheres, podem ter reinterpretado ocorrências mundanas como sombras
noturnas, odores químicos de numerosas fábricas locais e estados de ansiedade.
Ilusão em massa ou Histeria em Massa?
Antes de continuar, é necessário clarificar entre os termos histeria em massa e
ilusão coletiva. Estas são duas entidades separadas que são freqüentemente
usadas como equivalentes por cientistas e o público em geral. Histeria em massa
(também chamada histeria epidêmica, histeria contagiosa e doença psicogênica em
massa) envolve a expansão espontânea, patológica de sintomas de conversão.
"Histeria" é um termo ambíguo que foi usado para descrever nada menos que dez
anormalidades de comportamento individuais distintas, incluindo desordem de dor
psicogênica, personalidade histriônica e tipos de psicose.5 Ela envolve o
prejuízo ou perda de função sensória ou motora que não tem nenhuma base
orgânica.6 O nome mais moderno para histeria é "desordem de conversão", um termo
extensamente usado por médicos, psiquiatras, psicanalistas e psicólogos. Um
exemplo seria um fuzileiro que é profundamente contrário a matar e cujo braço
fica paralisado temporariamente ao tentar usar uma arma em uma situação de
guerra. "Histeria epidêmica" se refere à expansão rápida de sintomas de
conversão dentro de um conjunto particular de pessoas.
Em contraste, ilusões coletivas são tipicamente não-patológicas e envolvem
processos normais tais como a expansão rápida de crenças falsas mas plausíveis
(rumores), conformidade a normas do grupo e falibilidade perceptual humana.
Certas vezes, participantes de ilusões coletivas podem exibir sintomas de
conversão individuais ou epidêmicos. Muitos cientistas sociais não incluem
vários comportamentos imitativos dentro de grupos religiosos carismáticos como
histeria ou conversão em massa uma vez que não se originam de uma maneira
organizada, ritualizada ou institucionalizada.
Dado o papel influente dos jornais em Mattoon, pode ser que as vítimas estavam
redefinindo processos mundanos como relacionados ao gaseador, como ataques de
pânico, cheiros químicos, a perna de uma pessoa ficando "dormente" e várias
conseqüências físicas ambíguas da ansiedade como náusea, insônia, brevidade de
respiração, fragilidade, boca seca, vertigem, etc.
Também deveria ser enfatizado que os psiquiatras e médicos tipicamente usam a
palavra ilusão para descrever uma crença patológica persistente associada com
perturbação mental séria, normalmente psicose. Eu uso o termo ilusão coletiva ou
em massa para descrever a expansão espontânea e temporária de falsas crenças em
uma determinada população. Este é o modo em que a maioria dos sociólogos e
psicólogos sociais emprega o termo.7
Por que o Caso se Conforma à Literatura de
Histeria/Ilusão em Massa
Baseado em uma revisão da literatura em histeria epidêmica e ilusões coletivas,
há vários fatores chave envolvidos desencadeando episódios. Estes incluem a
presença de ambigüidade, ansiedade, a expansão de rumores e falsas crenças e uma
redefinição da ameaça potencial de geral e distante para específica e iminente.
Fatores exacerbadores incluem o papel crucial da influência de meios de
comunicação de massa em espalhar o medo, a falibilidade da percepção humana e
reconstrução de memória, eventos geopolíticos recentes e reafirmações
insuficientes de figuras de autoridade como líderes de comunidade ou o
representante de um grupo cético local (espero eu!), e instituições de controle
social como a polícia e exército.
A Importância do Contexto
Para mim, o único mistério que cerca o episódio do Gaseador Louco de Mattoon é a
pergunta relativamente secundária sobre se era um caso de histeria epidêmica ou
ilusão em massa. Os sintomas expressados pelas pseudo-vítimas eram o resultado
de ansiedade e uma redefinição de processos mundanos exacerbada pelos meios de
comunicação de massa, ou eles estavam experimentando reações de conversão?
O caso do episódio de Mattoon poderia ter sido desencadeado inicialmente por um
rondador ou gaseador fantasma real, ou poderia ter sido causado por uma entidade
paranormal como alguns sugeriram? Teorias envolvendo um real rondador ou
gaseador são altamente especulativas e foram feitas ignorando teorias básicas de
psicologia social (especificamente, dinâmica de conformidade, teste de
realidade, falibilidade perceptual e de memória) e a literatura científica em
histeria epidêmica e ilusões coletivas. E, é claro, sugestões da existência de
uma entidade paranormal como um fantasma gaseando os residentes sofre muitos
contratempos, o menor dos quais é a ausência de evidência convincente e
reproduzível de um único evento paranormal; assim eles permanecem sem
comprovação.8 O caso do gaseador louco pode parecer único nos anais do
comportamento de massa, mas em realidade é apenas um em uma série longa de
histerias epidêmicas e ilusões em massa ocorrendo durante o século vinte que
coincide com percepção maior da poluição ambiental e preocupações de guerra
química ativadas por ameaças de contaminação imaginárias ou exageradas. Este é
um tema especialmente comum em casos de histeria epidêmica.
A maior parte dos relatos de histeria epidêmica durante o século vinte
compartilha um único desencadeador destacado - um cheiro ou odor incomum sendo
descoberto pouco antes do incidente, tanto em grupos isolados9 quanto em uma
comunidade.10 Este é o contexto no qual o episódio aparentemente bizarro do
gaseador de Mattoon deveria ser entendido. A forma só parece bizarra àqueles que
estão pouco familiarizados com os elementos subjacentes básicos, que são muito
familiares.
- - -
Notas
-
"A UFOmania de
Illinois em 1897: Por que nós devemos ser cautelosos com os relatos modernos
de OVNIs," The REALL News, March 1998, Vol. 6, #3.
-
Johnson, D.M. (1945), The "Phantom Anesthetist" of Mattoon:
A Field Study of Mass Hysteria, Journal of Abnormal Psychology 40:175-186.
-
Miller, D.L. (1985), Introduction to Collective Behavior,
Belmont, CA: Wadsworth. Without providing a specific source, Miller (p. 100)
reports that there were occasional claims of gassings after that date.
-
Johnson, "The 'Phantom Anesthetist' of Mattoon," p. 176.
-
Kendell, R.E., & Zealley, A.K. (eds) (1993), Companion to
Psychiatric Studies (fourth ed.), Churchill Livingstone: London.
-
Alloy, L.B., Acocella, J., and Bootzin, R. (1996), Abnormal
Psychology: Current Perspectives (seventh edition), New York: McGraw-Hill,
p. 584.
-
Bartholomew, R.E. (1997), "Collective Delusions: A Skeptic's
Guide," Skeptical Inquirer, 21(3):29-33.
-
For an excellent discussion of paranormal phenomena from the
standpoint of mainstream science, see: Zusne, L., and Jones, W.H. (1982).
Anomalistic Psychology, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates; Alcock,
J.E. (1981). Parapsychology: Science or Magic? A Psychological Perspective,
Toronto: Pergamon Press. Both books are reader friendly and require no prior
knowledge on the subject.
-
For a handful of many examples, see: Stahl, S., and Lebedun,
M. (1974), "Mystery Gas: An Analysis of Mass Hysteria," Journal of Health
and Social Behavior, 1974;15:44-50; Selden, B.S. (1989), "Adolescent
Epidemic Hysteria Presenting as a Mass Casualty, Toxic Exposure Incident,"
Annals of Emergency Medicine, 18(8):892-895; Rockney, R.M., and Lemke, T.
(1992), "Casualties from a Junior High School during the Persian Gulf War:
Toxic Poisoning or Mass Hysteria?," Journal of Developmental and Behavioral
Pediatrics 13:339-342.
-
Colligan, M.J., and Murphy, L.R. (1982), "A Review of Mass
Psychogenic Illness in Work Setting," pp. 33-52. In Mass Psychogenic
Illness: A Social Psychological Analysis, M. Colligan, J. Pennebaker, and L.
Murphy (eds.), New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates. Modan B., Tirosh M.,
Weissenberg E., Acker C., Swartz T., Coston C., Donagi A., Revach M.,
Vettorazzi G. (1983), "The Arjenyattah Epidemic," Lancet, ii:1472-1476;
Goldsmith, M.F. (1989), "Physicians with Georgia on their Minds," Journal of
the American Medical Association, 262:603-604; McLeod, W.R. (1975), "Merphos
Poisoning or Mass Panic?," Australian and New Zealand Journal of Psychiatry,
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Poisoning in the Parnell Civil Defence Emergency: Fact or Fiction," New
Zealand Medical Journal, 95:277-278.
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