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- A Epidemia de Manchas no Pára-brisa de
Seattle:
Uma Famosa Ilusão em Massa do Século XX

A maioria dos residentes que
vivem nas redondezas de Seattle, Washington estão provavelmente incautos de que
todo ano desde os anos 50 têm sido assunto de discussão dos sociólogos e
psicólogos que lecionam cursos em comportamento coletivo e psicologia social.
Por quê?
Por causa de um episódio que afetou a região em 1954, e é amplamente referido
por cientistas sociais como "a epidemia de manchas no pára-brisa de Seattle"
("the Seattle windshield pitting epidemic"). O incidente é um exemplo clássico
de uma ilusão em massa ou ilusão social. É infeliz que tais eventos às vezes
sejam rotulados como um exemplo de "histeria em massa". A maioria dos cientistas
sociais de hoje prefere o termo ilusão social e é hesitante em usar a palavra
"histeria" uma vez que a maioria dos participantes dos episódios certamente não
está histérico no senso clínico. (Histeria é uma perturbação de sistema nervoso
séria que é tipificada por excitabilidade emocional e perturbações sensórias.)
Também, o uso do termo "histeria" pode ser visto como ofensivo a mulheres. Isto
porque durante os últimos dois séculos, muitos cientistas rotularam uma
variedade de comportamentos femininos impropriamente como "histéricos". Embora
esta visão tenha mudado entre a maioria dos cientistas em décadas recentes,
permanece um assunto sensível.
Tendo dito isto, o termo "histeria em massa" permanece popular nos meios de
comunicação de massa e entre o público pra descrever respostas da comunidade
exageradas a várias ameaças imaginárias. Isto incluiria tais incidentes como a
vilanização de incontáveis cidadãos inocentes de Wenatchee, Washington como
criminosos sexuais como documentado no livro excelente de Kathryn Lyon, Witch
Hunt (1998), e não é provável que seja substituído no futuro previsível através
de termos menos dramáticos como ilusão em massa ou ilusão social. Para exemplos
de "verdadeira" histeria em massa que envolve a expansão rápida de sintomas
histéricos em condições de grupo, veja Wessely (1987), Bartholomew e Sirois
(1996), e Boss (1997).
O episódio de manchas fantasma em pára-brisas começou no dia 23 de março de
1954, quando relatos na imprensa começaram a aparecer em jornais em Seattle. As
histórias informaram danos a pára-brisas de automóveis em uma cidade 80 milhas
para o norte. A polícia inicialmente supeitou de vândalos, mas à medida que o
número de casos aumentava, ficou logo evidente que esta não era uma explicação
viável. Com o passar dos dias, relatos de pára-brisas estragados moveram-se mais
para perto de Seattle. Pelo anoitecer do dia 14 de abril quando o agente
misterioso tinha chegado à cidade primeiro, até 15 de abril, a polícia tinha
anotado 242 telefonemas de residentes preocupados por Seattle, contando sobre
pequenas marcas em veículos que superavam mais de 3.000. Em alguns casos, foi
informado que lotes de estacionamento inteiros haviam sido atingidos.
O relato mais comum de dano envolvia alegações por testemunhas surpresas de que
marcas minúsculas cresceram em bolhas ao tamanho de moedas de dez centavos que
estavam embutidas dentro do vidro, levando à especulação por alguns quarteirões
de que o culpado eram ovos de mosca que tinham sido depositados de alguma
maneira no vidro e depois tinham sido chocados.
Os relatos diminuíram rapidamente e logo cessaram de forma completa. No dia 16
de abril a polícia registrou 46 reclamações de manchas, e 10 no dia 17, mas
depois daquela data não foi recebido um único relato adicional. O evento
terminou. A presença súbita das "manchas" criou ansiedade difundida já que elas
eram tipicamente atribuídas à precipitação atômica de testes de bombas de
hidrogênio que tinham sido conduzidos recentemente no Pacífico e tinham recebido
publicidade exaustiva da mídia. Na plenitude do incidente na noite de 15 de
abril, o prefeito de Seattle buscou ajuda até mesmo do presidente dos Estados
Unidos Dwight Eisenhower.
Porém, uma investigação por Nahum Z. Medalia da Instituto de Tecnologia da
Geórgia e Otto N. Larsen da Universidade de Washington (1958) determinou que as
manchas sempre tinham existido e tinham sido o resultado de eventos mundanos
como o desgaste comum pelo uso na estrada, mas tinham passado despercebidas. No
surgimento de rumores como a presença de precipitação nuclear nociva, e
espalhados por alguns casos iniciais amplificados pela mídia, os residentes
começaram a olhar para os pára-brisas ao invés de através deles.
Durante o episódio, o Governador contatou o Laboratório de Pesquisa Ambiental na
Universidade de Washington para analisar os relatos. Eles informaram que os
misteriores grãos pretos e fuliginosos achados em muitos pára-brisas eram
cenosferas - partículas minúsculas produzidas pela combustão incompleta de
carvão betuminoso. Tais partículas, foi notado, tinham sido por muitos anos
comuns em Seattle, e não poderiam marcar ou penetrar os pára-brisas (Bovee,
1954).
A literatura sobre ilusões em massa ou coletivas indicam o papel crucial de
vários fatores chave. Estes incluem a presença de ambigüidade, ansiedade, a
expansão de rumores e crenças falsas mas plausíveis, e uma redefinição da ameaça
potencial de geral e distante para específica e iminente. Fatores exacerbadores
incluem a falibilidade perceptual humana, meios de comunicação de massa
influenciam espalhando os medos, recentes eventos geo-políticos, e reforço da
falsa convicção através de figuras de autoridade e aqueles em instituições de
controle social (por exemplo, a polícia, exército, conferencista universitário
ou o líder dos Céticos de Washington).
Em suas conclusões, Medalia e Larsen notam pelo menos duas outras possíveis
funções da ilusão de manchas. Primeiramente, como os relatos de marcas
coincidiram com os testes de bombas-H, a publicidade da mídia parece ter
reduzido a tensão sobre as conseqüências medonhas inevitáveis dos testes de
bomba - "algo devia acontecer a nós como resultado dos testes de bombas-H - os
pára-brisas foram manchados - aconteceu - agora tudo terminou" (p.186).
Em segundo lugar, o próprio ato de telefonar à polícia e apelos pelo Prefeito ao
Governador e até ao Presidente dos Estados Unidos "serviu para dar às pessoas o
senso de que elas estavam 'fazendo algo' sobre o perigo que ameaçava" (pág.
186).
A epidemia de manchas no pára-brisa de Seattle é apenas uma de uma lista longa
de ilusões de massa que aconteceram nos Estados Unidos durante o século vinte.
Outros exemplos incluem o 'Diabo de Jersey' (1909), pânico de invasão marciana
(1938), o gaseador louco de Mattoon, Illinois (1944), avistamentos de discos
voadores (desde 1947), a Virgem Maria em Saba Grande (1953), e rumores e
perseguições que cercam a existência de uma rede difundida de culto Satânico e
grupos de molestamento de crianças que ficaram proeminentes desde os anos
oitenta (veja Bartholomew 1997, 1998 em imprensa).
Enquanto nos aproximamos do século vinte e um, a humanidade parece estar ficando
cada vez mais confiante nas várias formas de comunicação em massa para
informação precisa e imediata. Apesar de avanços contínuos em ciência e
tecnologia desde o Iluminismo, no clima presente, podemos estar ficando de fato
mais, não menos vulneráveis, a ilusões em massa.
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Robert Bartholomew é um sociólogo na James Cook University,
Queensland, Austrália e co-autor de UFOs and Alien Contact: Two
Centuries of Mystery, publicado por Prometheus Books, março de 1998. Ele
pode ser contatado em
art-reb2@jcu.edu.au.
Referências:
Bartholomew, Robert E. (1998).
"The Martian Panic Sixty Years Later: What have we learned?" Skeptical Inquirer
22 (November-December)
Bartholomew, Robert E. (1997). "Collective delusions: a skeptic's guide."
Skeptical Inquirer 21:29-33.
Bartholomew, Robert E., and Francois Sirois (1996). "Epidemic hysteria in
schools: an international and historical overview." Educational Studies
22(3):285-311.
Boss, Leslie P. (1997). "Epidemic hysteria: a review of the published
literature." Epidemiological Reviews 19:233-43.
Bovee, Harley H. (1954). "Report on the 1954 windshield pitting phenomena in the
State of Washington." Mimeographed: Environmental Research Laboratory:
University of Washington (June 10).
Lyon, Kathryn. (1998) Witch hunt: a true story of social hysteria and abused
justice. New York: Avon Books.
Medalia, Nahun Z, Larsen, Otto N. (1958). "Diffusion and belief in a collective
delusion." American Sociological Review 23:180-186.
Wessely, Simon. (1987). "Mass hysteria: two syndromes?" Psychological Medicine,
17:109-120.