- Os Antigos Mapas da Antártida
- por Andréia Tschiedel
- Há diversos mapas mostrando a Antártida
antes mesmo dela ter sido descoberta oficialmente, em 1818. O Mapa de Piri
Reis é o mais famoso deles, motivo pelo qual comecei meu estudo por ele.
- O Mapa de Piri Reis
Quando
a Turquia se tornou uma república no final do anos 20, houve uma abertura e
redescoberta de tesouros preciosos. Entre os vários cientistas estrangeiros
que trabalharam na classificação de documentos antigos estava o teólogo
alemão Adolf Deissmann. Em 1929, ele descobriu uma pele de camelo ressecada
e pintada com um mapa surpreendente, enrolado em uma prateleira empoeirada
do famoso Palácio Topkapi, em Istambul. Ao ver a assinatura logo reconheceu
o autor do livro Kitabi Bahriyre, Piri Reis.
No ano de 1.513, o almirante e cartógrafo turco chamado Piri Reis
(1470-1554) desenhou vários mapas, dentre esses, um mapa do Atlântico Sul
englobando a costa oeste da África, a costa oeste da América do Sul e o
norte da Antártica(?).
O mapa na verdade é um fragmento de um mapa-mundi (as outras partes estão
perdidas), foi pintado em 9 cores e mostra parte do oceano Atlântico com
suas terras. Em uma série de notas escritas de seu próprio punho, o
almirante Piri Reis diz que não é responsável pelo mapeamento e pela
cartografia original dos mapas e que foi confeccionado a partir 20 mapas,
desenhos e esboços, alguns de origem desconhecidas que estavam no inventário
do palácio. Segundo estudiosos, ele foi baseado em 8 mapas de Ptolomeu, um
mapa árabe da Índia e sudeste asiático e 4 mapas portugueses, e de um
suposto mapa capturado por seu tio, usado por Colombo. Desenhos de animais
ilustram o trabalho e as legendas e anotações em turco.
As Alegações de Hapgood
Após ter sido descoberto em Topkapi, cópias do mapa foram enviadas aos
maiores museus do mundo, mas não lhe foi atribuído um grande valor. Em 1953,
uma cópia chegou ao engenheiro-chefe do Departamento de Hidrografia da
Marinha Americana, que alertou por sua vez Arlington H. Mallery, um
especialista em mapas antigos. Foi então quando o "caso" do mapa de Piri
Reis veio a tona.
Mallery fez estudar as cartas por algumas das maiores autoridades mundiais
do assunto, como o cartógrafo J. Walters e o especialista polar R. P.
Linehan. Com a ajuda do explorador sueco Nordenskjold e de Charles Hapgood e
seus auxiliares, chegaram a uma conclusão sobre o sistema de projeção
empregado nos mapas: embora antigo, o sistema de Piri Reis era exato.
Charles Hapgood foi o responsável por ter tornado o mapa de Piri Reis tão
famoso. No seu livro, Maps of the Ancient Sea-Kings, de 1966, faz diversas
alegações, que se tornaram mais conhecidas ainda através de Daniken, que as
defendeu entusiasticamente. Aqui, um resumo delas:
- O mapa mostra, com nitidez, centenas de pontos do globo terrestre que só
seriam conhecidos, oficialmente, séculos depois com os navegadores
espanhóis, portugueses, holandeses e ingleses.
- Eles também revelam detalhes geológicos surpreendentes. Existem detalhes
curiosos, como por exemplo, a América do Sul e a Antártica são ligadas por
terra (o Estreito de Drake está faltando...) e a ilha de Cuba aparece ligada
à península da Florida. Várias ilhas e faixas de terras aparecem em vários
pontos que não são visíveis hoje em dia, o que indica que o mapa foi feito
qdo o nível do oceano era muito mais baixo do que o atual.
- No mapa aparecem extremamente bem desenhados os detalhes da costa do
continente americano. Até mesmo a cordilheira dos Andes aparece em detalhes,
bem como as montanhas da Antártida. Possuí uma exatidão impressionante
nomeadamente no que tange aos contornos da Antártida, cujos contornos mais
ou menos exatos, só foram possíveis de determinar nos dias que correm, mais
concretamente a partir da década de 60 do século XX, com o recurso a meios
aéreos e a satélites.
- O aspecto alongado das massas de terra se devem a uma projeção
eqüidistante do centro do mapa, localizado sobre Alexandria, Egito (esquema
abaixo), similar ao obtido por um satélite em grande altitude sobre o local.

- - Os erros que o mapa apresenta foram resultados de erros feitos por
Piri Reis na compilação dos dados de fontes milenares e extremamente exatas.
Ou então devido a mudanças no nível dos oceanos devido a última
de-glaciação, ocorrida a cerca de 6 mil anos atrás.
Essas alegações vieram fundamentadas em testemunhos como esse:
Uma cópia do mapa foi enviado para o Esquadrão de Reconhecimento Técnico
da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), encarregado da cartografia militar
norte-americana, com a intenção de comprovar a precisão de seus contornos.
Em 6 de Julho de 1960, o tenente-coronel Harold Z. Ohlmeyer relatou suas
conclusões. Nelas admitia que a costa antártica que representava o mapa
teve, forçosamente, que "ser cartografada antes que fosse coberta pela capa
de gelo". Segundo Charles Hapgood, isso aconteceu há mais de 6 mil anos
atrás.
E ele conclui:
"A evidência apresentada por antigos mapas parece sugerir a existência em
tempos remotos, antes do aparecimento de qualquer das culturas conhecidas,
de uma verdadeira civilização, de um tipo avançado, a qual estava localizada
em uma área mas tinha comércio mundial, ou era, realmente, uma cultura
mundial"
- - -
- Como foi sugerido que não haveria não haveria conhecimento suficiente
para se fazer este mapa no início do século XVI, procurei outras explicações
para as origens do mapa, que não incluíssem uma foto tirada por satélite há
mais de 6 mil anos atrás.
Aqui farei uma pequena exposição item a item das alegações e dos fatos que
eu apurei.
As possíveis origens do mapa, contrapondo as alegações de Hapgood:
-A existência da Antártica
Piri Reis não foi nem o primeiro nem o único cartógrafo
a colocar a Antártica nos seus mapas. A existência de uma grande massa de
terra na parte austral do globo terrestre já fazia parte do sistema
filosófico dos gregos. Segundo eles, serviria para equilibrar o mundo,
contrabalançando a enorme porção de terras já conhecidas na época (Ásia,
África e Europa), todas no hemisfério norte. O grande geógrafo grego,
Claudio Ptolomeu (séc II dC) criou as bases da cartografia que foram usadas
até o final da idade média e parte da Renascença. Esta terra ainda não
conhecida freqüentava os mapas e a imaginação dos cartógrafos com bastante
regularidade.
Em 1508, por exemplo, Francesco Roseli publicou seu mapa-mundi, segundo o
estilo ptolomaico, e lá no círculo antártico faz menção a uma terra ainda
incógnita.

-
- Abaixo um mapa editado na Idade Média (Nordenskiöld, 1483 -Brescia),
baseado no trabalho de Ambrosius Macrobios (395-423 dC). Note-se que este
mapa era comum durante toda a Idade Média, e que colocava a existência de
uma terra coberta de gelo na parte austral do mundo qse como uma certeza.
-Elevação do nível do mar
Outros mapas da época (o de Lopo Homem e Jorge Reinel (1519) e os usados
por Américo Vespúcio(1523)) apresentam a ilha de Cuba ligada ao continente e
uma ligação por terra da América do Sul com uma porção de terrra mais ao
sul. Estes mapas tiveram como fontes informações de navegadores portugueses
e espanhóis, além de se basearem no mapa de Cristovão Colombo. Colombo
pensava que Cuba fazia parte do continente, noção que foi passada a outros
cartógrafos e navegantes.

Parte centro americana apresentada no mapa de Piri-Reis
Piri Reis, em anotações, tanto no próprio mapa como no seu livro, diz que
uma das suas fontes foi o mapa de Colombo, o que explica a "diferença do
nível do mar".
- - Projeção esférica
Outra alegação, que Piri Reis usou um inédito sistema de projeção esférica,
também não corresponde a exata verdade, pois durante a Idade Média, já se
conheciam outros mapas que usavam tal método. Exemplifico com o mapa-mundi
de Virga (Albertino Virga,1411/1415) que distribuía harmoniosamente os três
continentes conhecidos ao redor do mar Morto, que é o ponto central deste
mapa.

O mapa de Virga já demonstra a tendência das cartas
náuticas (mapas portolanos),
da qual o mapa de Piri Reis faz parte.
O uso do compasso e das bússolas como instrumentos náuticos, comuns desde
o fim do séc XII , junto com o desenvolvimento do astrolábio, foram
decisivos para a criação das cartas náuticas, que conseguiram um grande grau
de perfeição já no séc. XIV. No final desse século os cartógrafos já tinham
conhecimento de latitude e longitude, além de terem idéia dos círculos
polares.
O mapa de Piri Reis não foi feito como os mapas modernos, com grades
verticais e horizontais para facilitar a localização. O método utilizado é
mais antigo, aperfeiçoado por Dulcert Portolano, que utilizava uma série de
círculos com linhas se irradiando a partir deles. Os mapas feitos com esse
método são, por isso, denominados de mapas "portolanos". Seu objetivo era
guiar os navegadores de porto a porto, ao contrário da concepção moderna que
é a de localizar uma posição.
Note-se que cada capitão de navio levava consigo um cartógrafo, cujo
trabalho era para "consumo interno", ou seja, para orientação do capitão e
não como trabalho em prol do conhecimento geográfico do mundo. Por isso cada
mapa era praticamente personalizado.
Outro exemplo de mapa portolano e que apresenta as mesmas deformações no
continente americano que o mapa de Piri Reis é o feito em 1502/1505, pelo
genovês Nicolo Caverini.
-
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- Também este mapa editado por Martin Waldseemuller, em 1507 apresenta o
mesmo formato alongado do continente sul-americano.
-
-A exatidão do mapa
Assim como houve enganos quanto a penínsulas não existentes, algumas
ilhas fictícias foram acrescentadas ao mapa. Isso era algo comum aos mapas
da época. Há diferenças de latitudes, tanto nos hemisférios sul e norte da
América. O rio Amazonas é colocado duas vezes, uma com a foz e outra sem.
Além do mais, o continente Antártico não está representado com a famosa
perfeição, tanto em localização (está uns 10° defasado, na altura da costa
uruguaia) como em contorno, com ou sem a capa de gelo.
O desenho acima mostra os contornos dos continentes (linhas tracejadas) em
justaposição aos do mapa de Piri-Reis. Apesar das distâncias entre a África
e o Brasil ter uma boa aproximação, há diferenças demasiado grandes para se
aceitar o mapa como exato.
Também me chamou a atenção que o continente americano tem a sua costa
leste muito mal definida, quase uma linha reta. Tal contorno já se
encontrava no mapa de Johanes de Strobnicza, feito um ano antes (1512).
- -Antártida sem a capa de gelo.
Quando se alega que para se cartografar o continente antártico sem a capa
de gelo que hoje a recobre devemos nos reportar a uns 6 mil anos no passado,
me deparo com uma enorme incoerência.
Se a Terra está em processo de aquecimento, como nesta época poderia a
Antártica estar sem a capa de gelo que a recobre?
Sabemos que a última glaciação ocorreu há 40 mil anos atrás e que a
de-glaciação começou a cerca de 12 mil anos. Este fato até é apontado como a
causa dos oceanos terem subido e feito desaparecer as ligações por terra da
Antártida e da Ilha de Cuba, lembram?
Mas se a de-glaciação começou há 12/10 mil anos, o correto não é supor que
que antes disso a capa de gelo sobre a Antártica seria muito mais espessa e
maior do que é hoje? E que ela inclusive devia avançar até o continente
sul-americano, portanto se hoje a ligação de terra não existe, naquela época
seria invisível da mesma forma por estar sob gelo?
Ou seja, se houver um reporte ao tempo em que esta porção de terra estava
livre da capa de gelo, devemos ir a mais de 40 mil anos no passado.
-Fontes antigas
Piri Reis, no seu livro Kitabi Bahriyre, diz que se utilizou diversas
fontes, entre elas mapas antigos que remontavam ao tempo de Alexandre, o
Grande (séc II aC). Porém, a parte que sobrou do mapa está coberta de
anotações que indicam de onde cada pedaço ali mapeado foi baseado e nada aí
indica esta antiga fonte.
A parte referente a América tem como referências apenas Cristóvão Colombo
e navegadores portugueses (há inclusive uma frase que parece falar em como
Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil).
A terra austral (Antártica) tem as seguintes indicações:
IX - E neste país parece que há monstros de cabelos brancos nessa forma, e
também bois de seis chifres. Os infiéis portugueses escreveram em seus mapas
...
X - Este país é um desperdício. Tudo está em ruínas e diz-se que grandes
cobras podem ser encontradas aqui. Por esta razão, os infiéis portugueses
não desembarcaram naquelas praias e diz-se também que é muito quente.
Conclusão
Baseando-se apenas no que está no mapa, nada há que esteja incongruente
com os conhecimentos do início do século XVI. E nada nele indica que foi
utilizada uma tecnologia de mapeamento desconhecida na época. Não há
necessidade de foto de satélites para explicá-lo.
Muitas das conclusões foram exageradas e não suportam uma análise mais
apurada, tal como a estória do continente livre do gelo numa época em que
ela era ainda maior do que hoje. E a exatidão do mapa, então?!!
A suposição que o conhecimento de locais mais distantes só seria possível
para povos com conhecimentos tecnológicos mais avançados também não
corresponde à verdade. Tanto que há sinais de que os vikings e fenícios
estiveram no continente americano muito antes dos espanhóis e portugueses
descobrirem o Novo Mundo. Inclusive, atualmente, se aventa a possibilidade
de que Colombo já estivera por estas bandas muito tempo antes da expedição
oficial de 1492.
A possibilidade de povos em um passado mais remoto terem feito o mesmo não
pode ser descartada. E sem necessidade de mais do que conhecemos da antiga
arte de navegar. Para os que duvidam da possibilidade, convém lembrar que
Thor Heyerdahl atravessou o Atlântico numa canoa de papiro baseada em
desenhos egípcios e Tim Severin atravessou-o numa canoa de peles de boi
conforme os monges da Irlanda devem ter feito.
Portanto, há uma grande possibilidade de se ter feito muito barulho sobre
algo mal estudado. Não há evidência de que as fontes antigas e desconhecidas
tenham sido utilizadas nesta porção do mapa.
Creio que o grande valor deste mapa está no fato de ser a mais antiga
referência que se tem dos mapas que Colombo deve ter feito. E também por ter
tido tanta fontes portuguesas e espanholas, pois mapas náuticos eram
considerados como segredos de Estado por estes. Nada mais!
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