- A Lógica Jedi
- por Kentaro Mori
Um mundo em
que a paranormalidade fosse real seria completamente diferente daquele que
conhecemos. E uma das capacidades paranormais mais contrárias à nossa lógica
seguramente seria a precognição, a capacidade de prever o futuro. Se fosse
realmente possível prever o futuro, nosso mundo poderia ser comparado a uma
Galáxia distante, há muito tempo atrás, palco de uma história fantástica que
conhecemos por Guerra nas Estrelas, ou Star Wars.
Star
Wars tem a força de uma mitologia contemporânea, assunto para livros
inteiros, mas o aspecto interessante na saga a este texto é especial: todo
um universo mágico (ou paranormal) foi adaptado a um contexto futurista que
ainda depende por vezes da tecnologia e, presume-se, da ciência. Star
Wars
não é ficção científica, é fantasia romanceada, mas há um esforço
perceptível em atribuir certa lógica a este universo fantasioso-tecnológico
em que é possível prever o futuro, usar telecinese e esperar que a 'Força
esteja do nosso lado' ao mesmo tempo em que se viaja pelo hiperespaço para
chegar a Estrelas da Morte movidas por reatores nucleares.
A incongruência mais aparente e curiosa em Star Wars é que em um
mundo repleto de alta tecnologia, uma elite guerreira representada pelos
cavaleiros Jedi usa espadas - ou melhor, sabres de luz - ao invés de armas
avançadas, como uma pistola laser superpotente ou uma metralhadora
inteligente. Os motivos para que isso seja assim são mais ligados à origem e
produção dos filmes do que a alguma razão ficcional.
O nome 'Jedi' (lê-se, como todos sabem, 'djedái') é uma corruptela criada
por George Lucas do termo japonês 'Jidai Geki' (lê-se 'djidái gueki'), que
eram romances sobre o Japão feudal que geralmente envolviam nobres samurais
seguindo o bushidô, um rígido código moral. Muito da fantasia de Star Wars,
principalmente os cavaleiros Jedi, é referência clara aos Jidai Geki e ao
bushidô. Sabendo disto é revelador descobrir que no Japão real, ao contrário
de em
Star Wars, as armas de fogo de fato acabaram substituindo a espada. A
espada continuaria parte importante da cultura japonesa, mas as armas de
fogo eventualmente a tornaram obsoleta, como um outro filme de Lucas
ilustrou: a impagável cena de Indiana Jones atirando em um habilidoso árabe
manipulando uma espada.
Os
Jedi usam espadas porque foram inspirados em samurais, porém entrando de
cabeça na lógica do universo de Star Wars podemos encontrar uma razão
muito interessante para que cavaleiros Jedi usem espadas ao invés de armas
de fogo. Essa razão também explicaria como eles conseguem se desviar ou até
rebater tiros de laser que viajam à velocidade luz.
Tudo isto ocorre porque os cavaleiros Jedi
têm a capacidade de prever o futuro. Como podem prever o futuro, podem se
desviar de tiros antes mesmo que eles sejam disparados, o que lhes dá tempo
para calcular uma seqüência de movimentos que permita o desvio de diversos
disparos.
Entender como a precognição torna o uso de espadas algo inevitável é um
pouco mais complicado. Imagine que você queira matar um Jedi que, lembrando,
pode prever o futuro. Como sabemos, atirar nele não seria muito eficaz já
que ele saberá quando e onde o tiro será dado, e assim poderá se esquivar ou
evitar a emboscada. Mesmo emboscadas elaboradas tornam-se algo um tanto
difícil já que embora a precognição Jedi não seja perfeita, é razoavelmente
capaz de deixá-lo alerta quanto a alguma ação ofensiva. Matar alguém que
pode prever o futuro não é algo muito fácil.
Não seria impossível matar um Jedi através de uma emboscada. Usar a temida
Estrela da Morte e explodir um planeta inteiro pode acabar dando conta do
recado -- "de repente sinto uma perturbação na Força". Mas se isso pode dar
conta de um Jedi, fica claro que seria pouco prático fazer o mesmo em
relação a centenas de cavaleiros espalhados por diversos planetas pela
Galáxia. Fica a pergunta mórbida: qual a melhor forma de matar Jedis?
Você deve ter adivinhado: usando espadas, através de um combate corpo a
corpo. Se o primeiro golpe que dermos pode ser previsto pelo nobre Jedi, o
segundo golpe dependerá da reação dele, e assim sucessivamente. Um combate
corpo-a-corpo, em que nossos ataques e defesas dependam diretamente dos
ataques e defesas do oponente tornam a precognição praticamente inútil. Ela
deixa de desempenhar um papel crucial para dar lugar à habilidade dos
combatentes: quem for mais ágil e perspicaz eventualmente sucederá em vencer
o oponente, por mais que este possa prever o futuro. É incrível, mas a
'simples' capacidade de prever o futuro, nem que seja o futuro imediato,
torna obsoleta toda a lógica de combate que conhecemos e nos leva de volta à
época feudal, onde a habilidade do guerreiro é o elemento mais importante em
um combate. Na lógica Jedi onde a precognição é possível, armas brancas
combinadas à habilidade são muito mais importantes que armas de fogo.
Esse é apenas um dos detalhes profundos que podemos imaginar de um mundo
paranormal. Infinitos outros existem, e em conjunto não formam apenas
detalhes, mas modificam completamente a justiça, a lógica e a realidade. Um
mundo paranormal seria totalmente diferente do que conhecemos, e antes de
acreditar em precognição, telecinese, leitura da mente e afins, pense bem se
o mundo que surge com tais idéias realmente faz sentido - e, mais
importante, se este mundo é o mundo que você pode ver e comprovar diante de
si.
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