- O demônio ceifador
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O
fenômeno dos
círculos nas plantações como o conhecemos começou por volta de meados da
década de 70 no sul da Inglaterra. Contudo, uma evidência mais séria da
antigüidade do fenômeno é um panfleto de 1678, que fala sobre o "demônio
ceifador", ou "diabo ceifador" e que você confere nesta página.
A gravura pode falar mais do que mil palavras, mas não deve ser tomada como
única fonte de informação. O panfleto conta uma história, que é freqüentemente
distorcida para sustentar adicionalmente a antigüidade dos círculos nas
plantações. Incrivelmente, é muito simples evitar distorções: basta citar o que
o panfleto diz:
O DEMÔNIO CEIFADOR: ou NOTÍCIAS ESTRANHAS DE HARTFORD-SHIRE
Sendo verídico o relato de um Fazendeiro que pechinchava com um ceifador pobre
sobre o corte de três acres e meio de aveia: desde que o cortador lhe pedia
um preço muito alto, o Fazendeiro jurou que o Demônio deveria cortar a safra
de aveia ao invés dele. E assim que foi abatido naquela mesma noite, o campo
de aveia mostrou-se como se fosse uma só chama: mas na manhã seguinte estava
tão cuidadosamente ceifado pelo Demônio, ou algum Espírito Infernal, como
mortal algum o faria tão bem.
Também, agora a aveia jaz no campo mas seu proprietário não tem Força para
colhê-la.
Licenciado, 22 de Agosto de 1678.
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Os Homens podem flertar com o Paraíso e criticar o Inferno, tão
perspicazmente quanto lhes aprouver mas que há realmente tais lugares, a
sábia Revelação da Providência do Todo Poderoso não cessa de evidenciar
continuamente. Se por essas circunstâncias acumuladas que geralmente nos
induzem à crença de alguma coisa além dos nossos sentidos podemos
racionalmente entender que certamente há coisas assim como DEMÔNIOS, devemos
necessariamente concluir que estes Demônios têm um Inferno. E da mesma forma
que existe um Inferno, deve haver um Paraíso e consequentemente um Deus
sendo portanto todas as Obrigações da Religião Cristã conseqüências
indispensáveis e necessárias a serem seguidas.
À primeira de tais proposições por confirmar, esta posterior narrativa será de
pouca ajuda.
Há não mais tempo atrás que dentro do correr deste presente mês de Agosto,
aconteceu um incidente não usual em Harthfordshire, não só por não ser de
narrativa comum e ter provocado a admiração do todo município mas também por
poder, por sua raridade, intimidar quaisquer outros eventos que tenham
acontecido em quaisquer outros municípios em todos esses muitos anos, sejam
eles quais forem. A estória é esta.
No dito município, vive um rico e industrioso fazendeiro que observando uma de
suas plantações (de aproximadamente um acre e meio de terra que havia
semeado com aveia) pronta para colheita, convidou um pobre vizinho, que se
sabia trabalhar usualmente no verão no serviço de lavrador, a concordar com
ele quanto a ceifar ou cortar os ditos pés de aveia. O pobre homem, como que
na obrigação de empenhar-se a vender o suor de sua fronte e o tutano de seus
ossos a um valor tão caro quanto pudesse, estipulou um bom e razoável preço
por seu trabalho ao que o Fazendeiro, com escusas em relação a este,
ofereceu valor muito abaixo do que o que o pobre homem pediu e, após algumas
palavras ríspidas, disse-lhe que não discutiria mais sobre isso.
Em decorrência do honesto lavrador lembrar a si mesmo de que se não tomasse
para si aquele pequeno serviço ele poderia perder muito mais serviços que o
fazendeiro teria para empregá-lo dali para frente, correu atrás dele e
disse-lhe que ao invés de contrariá-lo, ele faria o serviço por qualquer
valor razoável que o agradasse e, como um exemplo de seu desejo em servi-lo,
propôs um preço mais baixo do que o que tivesse ganho por ceifar em qualquer
época anterior àquele ano. O irredutível Fazendeiro, com uma aparência
severa e gestos bruscos, disse ao pobre homem que o próprio Demônio ceifaria
seus pés de aveia antes que ele tivesse qualquer coisa a fazer com eles e
após isso seguiu seu caminho, deixando o triste trabalhador do campo, nem um
pouco preocupado com o fato de ter se descompromissado com alguém em quem
residia o poder de fazer-lhe muitas gentilezas.
Mas, entretanto, em uma feliz série de prosperidade interrompida, nós
podemos nos vangloriar de nossos eus sobre as miseráveis indigências de
nossos vizinhos necessitados, contudo existe um Deus justo lá em cima, que
nos avalia não por nossa posses ou pela medida de nossos tesouros: mas olha
para todos os homens indiferentemente, como filhos de Adão: então aquele que
cuidadosamente anuncia que a grandeza ou posição está onde o Todo Poderoso o
coloca ao invés do mesquinho, é verdadeiramente mais merecedor da estima de
todos os homens, então aquele que é preferido aos dignatários superiores, e
os decepciona: E que decepção maior que o desprezo ao homem abaixo dele: o
alívio daqueles cujas necessidades básicas é nenhuma das maneiras mínimas de
modo a manter as suas Boas Coisas: que quando esta garantia é confiscada por
suas falhas, ele pode razoavelmente esperar por um Julgamento a seguir: ou
pelo menos que aquelas riquezas das quais se orgulha de forma tão
extravagante possam ser rapidamente tiradas dele.
Nós não tentaremos captar a causa, ou razão, destes eventos Preternaturais:
mas certos nós estamos, como os relatos mais gerais e críveis podem nos
informar, que naquela mesma noite em que este Pobre Cortador e o Fazendeiro
se separaram, este campo de cereais foi visto publicamente por muitos
transeuntes como sendo todo uma Chama, e continuou assim por alguma
distância, para grande consternação de todos os que presenciaram aquilo.
Aquelas estranhas notícias chegaram ao Fazendeiro na manhã seguinte, e não
poderia deixar de produzir grande curiosidade para ir e ver o que sucedera
de seu campo de cereais, que ele não podia imaginar, mas que estava
totalmente devorado por aquelas chamas vorazes que foram observadas pelos
que residiam ao redor de um acre e meio do Local
Certamente uma reflexão sobre sua repentina e indiscreta expressão (de que o
Demônio deveria ceifar seus Cereais antes que o pobre homem pudesse ter
qualquer coisa a ver com eles) não poderia deixar de vir à sua Memória.
Porque se nós nos permitirmos alguma reflexão, para considerar quantos
acertos da providência são necessários para a produção de um campo de
cereais, assim como a inclinação do solo, as tempestades fora de época,
solstícios nutritivos e ventos salubres, etc, nós podemos saudar a
Maturidade com Reconhecimentos Devotos a prevenir nossa reunião de desejos
profundos.
Mas para não manter o Leitor curioso mais em suspense, o inquisitivo
fazendeiro logo chegou no local onde o cereal crescia, mas para sua
admiração ele encontrou a plantação cortada e pronta para a retirada; e
[como se] o Demônio tivesse em mente exibir sua destreza na arte da lavoura,
e para desdenhar o corte da maneira usual, ele a cortou em circulos, e
colocou cada palha com uma exatidão que levaria mais que uma Era para
qualquer homem fazer o que ele realizou naquela única noite: E o homem que
possui [a plantação cortada pelo Demônio] ainda está com medo de removê-la.
FIM
Lendo toda a longa história do panfleto, fica evidente que é uma
lição de moral a respeito de um fazendeiro ganancioso, que além disso blasfemou.
Francesco Grassi, do CICAP, comenta como o conflito de classes também está bem
claro: o fazendeiro é o "rico", e o ceifador, o "pobre". Tudo isto não é nada
incomum, panfletos medievais eram o meio fácil através do qual estórias de moral
e boatos envolvendo bruxas, demônios e afins se espalhavam tão facilmente quanto
notícias verdadeiras. Os panfletos medievais dariam origem ao jornal, ao boletim
e então às nossas modernas revistas. Mas são melhor comparáveis aos tablóides
sensacionalistas de hoje.
Muitos parecem se esquecer que a história é sobre um demônio
ceifador, devidamente segurando uma foice, e que os círculos nas plantações que
conhecemos não envolvem o corte de plantas. Além disso, a gravura parece estar
representando um demônio ceifando aveia que está envolta em chamas. Podemos
identificar irradiando do corpo do demônio algumas labaredas. Estas chamas
também são descritas no texto, embora relatos de grandes chamas infernais na
formação de círculos não sejam comuns presentemente ("orbs", supostas bolas de
luz vistas em círculos, dificilmente podem ser confundidos com chamas).
No final da história, também fica claríssimo como a plantação
foi ceifada, e disposta cortada de forma meticulosa. Isso difere e muito das
plantações contemporâneas dobradas e amassadas. Mas, se há uma coincidência, é o
fato de que em ambos casos a complexidade do trabalho resultante leva a
especulações sobrenaturais.
Praticamente todas estas avaliações críticas, desassociando o
panfleto medieval dos modernos círculos, também foram feitas pelo Dr Owen
Davies, professor de história, ao cético Francesco Grassi. Detalhe: Davies é
professor da história da Universidade de Hertfordshire. Poucos mais de
trezentos anos depois, no mesmo condado inglês.
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Notas: Lendas associadas ao fenômeno das 'fairy
rings' (anéis, círculos de fadas), e as fairy rings em si são algo
comprovadamente antigo, mas este fenômeno é muito diferente dos círculos nas
plantações e, ao contrário dele, explicado como produto natural de fungos. Elas
não devem ser misturadas aos círculos nas plantações que conhecemos.
O panfleto sobre o demônio ceifador parece ter sido bem divulgado em "The
Hertfordshire 'Mowing Devil' Woodcut: A 17th Century Circle Report?",
Jenny Randles. UFO Times, no. 5 (January 1990), pp. 30-32. Ele parece ter vindo
à tona em The Journal of meteorology UK (vol. 14 nº 143), novembro de
1989 (como citado por Alexandre Borges no grupo de discussão).
A tradução completa do texto do panfleto
foi gentilmente realizada por Lígia Amorese, Vera Filizolla e Homero, membros do
grupo de discussão do website. O texto completo, original em inglês arcaico,
pode ser lido na
página do CICAP.
Leia mais
A página de
Francesco Grassi do CICAP sobre o panfleto do demônio ceifador.
- Uma ótima referência em português sobre o tema dos círculos nas plantações
pode ser lida no website do
Projeto Ockham.
- Para saber mais sobre Doug Bower e Dave Chorley,
Dios! tem uma
excelente biografia destas 'raras avis'.